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“Admiro quem sabe, mas eu não sei lidar com muitas regras” - Pedro Laginha

“Admiro quem sabe, mas eu não sei lidar com muitas regras” - Pedro Laginha

António Pedro Santos Raquel Carrilho 09/12/2015 17:04

Todos os dias invade as casas dos portugueses como o ambientalista Eduardo Reis, na novela “Santa Bárbara”, na TVI. A partir de dia 17 de Dezembro, a este desafio junta um outro, a peça de teatro “Boas Pessoas”, de David Lindsay-Abaire, com encenação de Marta Dias, que subirá ao palco do Teatro Aberto. Uma peça sobre as lutas do dia-a-dia que, de certa forma, tem a ver com Pedro Laginha. É que ele também é uma pessoa do dia-a-dia. Um tipo banal, que se encontra e descobre como actor e como músico, na banda Mundo Cão.

Na novela “Santa Bárbara”, da TVI, dá vida a um ambientalista, algo que parece estar mais na moda que nunca.

E ainda bem, quer dizer que estamos com uma maior consciência em relação à nossa peugada no meio ambiente. Estamos a aprender a ser menos egoístas e a pensar no planeta como um ser vivo do qual fazemos parte.

Essas preocupações já faziam parte da sua vida ainda antes desta personagem?

Sim, sim. Sempre tive alguma consciência ambiental e muita preocupação com o planeta que estamos a criar e o que vamos deixar para as gerações futuras... Principalmente a partir do momento em que tive filhos. Neste processo começamos a tomar consciência de que, muitas vezes, as decisões tomadas pelos governos são a favor de outros interesses que não o ambiente e as pessoas.

Podemos fazer uma analogia entre o ambiente e a cultura, ambas áreas que normalmente suscitam o mesmo tipo de empenho da parte das forças governativas…

Vamos ver. Agora temos um novo cenário.

Ainda em relação a esta personagem de “Santa Bárbara”, Eduardo Reis… Normalmente, quando se aborda o assunto do ambiente nas novelas, é sempre apresentado um retrato de uma personagem excêntrica, hippie, até um pouco louca...

E que veste Coronel Tapioca! Há esses clichês. Aqui existem os mesmos clichés a nível de roupa: por exemplo, o Eduardo anda com aquele saco ao ombro que todos os ambientalistas devem ter.

Insistir nesse perfil das personagens dificulta o passar da mensagem?

Sim. Mas muitas vezes há uma dificuldade muito grande em arriscar. As novelas funcionam muito por padrões. Os protagonistas geralmente têm que ser bonzinhos. São clichés dos quais não conseguem fugir, têm medo de arriscar. Mas temos tido evoluções e temos conseguido fazer coisas cada vez mais próximas da realidade.

“Santa Bárbara”, tal como “A Única Mulher”, vai ter uma segunda temporada. Como encara isto? Normalmente os actores queixam-se sobre o quão pesado é fazer novela, porque são projectos que duram muito tempo. Agora, com uma segunda temporada, vai durar ainda mais...

Antigamente partíamos de uma base de 150 ou 160 episódios. Agora já partimos de uma base de 200 ou 250. Não sei o que será melhor ou pior, porque antes acabavam a esticar as novelas até aos 250 ou 300 episódios. Mas muitas vezes uma história que está programado para ser contada em 150 episódios não é a mesma coisa se for contada em 300. Vão ter de usar muita palha, esticar imenso, criar situações que, se calhar, não precisariam de criar para sustentar uma mensagem que já todos percebemos qual é.

Mas acha interessante esta nova abordagem das duas temporadas?

Sim. A nível de escrita, acredito que seja aliciante, de repente, colocar aquelas personagens dali a meia dúzia de anos e ver como estarão as suas vidas. Até para nós, actores, é um bom desafio. É engraçado ter de pensar o que é que a personagem fez naqueles anos, quem é agora? Como actor é um bom exercício. No meu caso na “Santa Bárbara”, a minha personagem ganhará outras funções, uma postura um pouco diferente e mais radical. O que é bom.

Em novela nem sempre há espaço para esses registos mais radicais?

Pois. Principalmente porque nós, quando entramos no sistema, acabamos por perder esse radicalismo e muitas das nossas convicções e aquilo que defendemos... Quando entramos no sistema acabamos por amainar e sentir quase uma impotência. Por mais que tenha ideias e tente mudar alguma coisa, realmente não mudo nada porque não depende de mim. Mas eu não concordo totalmente com este pensamento. Acho que nós devemos lutar e continuar a defender aquilo em que acreditamos. Mesmo que sejamos só nós. Mas tem de ser, para sermos verdadeiros connosco.

Tem feito muitas novelas, curiosamente em canais diferente. A máquina acaba por ser sempre muito semelhante?

Sim, a maneira de funcionar é basicamente a mesma.

E a máquina por vezes engole?

A mim acredito que já não. Mas a malta que está a começar, ou que começou logo pela televisão e não pelo teatro, acho que acabam por ser engolidos e ficam limitados. Ou acabam por se limitar muito a eles próprios porque só conseguem ver o seu futuro trabalhando em televisão.

Também porque, quando se faz muitas novelas de seguida, são os próprios actores que chegam a casa e se questionam se saberão fazer mais do que televisão?

Sim, esse pensamento pode acontecer. Já não me acontece há algum tempo porque fui sempre fazendo outras coisas, em teatro, nas locuções. Mas no passado isso já me aconteceu. Mas depois há a questão financeira da televisão, que é muito motivante e inegável. Ainda que continuemos longe de falar de tabelas de salários como lá fora em que um actor faz uma série e pode ficar anos sem fazer nada. Cá não dá para fazer isso. Mas é muito gratificante. E depois começamos a perceber que, se eu estiver no teatro, as pessoas vão-me ver com a referência de me terem visto na televisão. Acabamos por beneficiar as salas de teatro com isso. Trazemos pessoas ao teatro porque nos viram na televisão e agora nos querem ver no teatro.

Até o próprio teatro não diaboliza tanto a televisão como fazia antes, acabando até por aproveitar a caixinha mágica?

Algum teatro. O teatro comercial claro que não, até vive muito disso. Quanto ao restante teatro, também cada vez diaboliza menos. Já o cinema continua a diabolizar, e muito, a televisão. Cheguei a ouvir realizadores dizerem-me que “esse actor não porque faz televisão”. Fazer televisão é um motivo para nem pensarem em nós.

Quando olha para o seu currículo pensa que poderia ter tido outras experiências que não teve por existirem esses anti-corpos?

Sim, sim. Nomeadamente no cinema, que não tenho feito, penso que por ser uma cara que aparece muito na televisão. Mas já me chateei mais com isso por sentir que acabavam por ser sempre os mesmo actores a fazer e eu conheço tantos actores bons aos quais não é dada a oportunidade de fazer cinema. Penso que o próprio cinema iria beneficiar tanto do talento e do trabalho desses actores.

Como o próprio teatro beneficiou quando se abriu um pouco a actores que tinham um currículo maior em televisão e, desta forma, ganhou um outro ritmo?

Claro que sim. Mas depois, em certas classes ditas intelectuais, acaba por haver um certo purismo e isso acaba por torná-las mais herméticas e mais distantes das pessoas.

Mas não deveriam ser exactamente essas classes mais intelectuais a saberem que não existe uma coisa chamada actor de teatro, actor de cinema, actor de televisão?

Lá fora já todos sabem isso! Mas aqui cheguei a ter colegas que me disseram que iam ficar uns três ou quatro anos sem fazer televisão só para verem se conseguiam fazer cinema. Isto revela muito. E complica muito a vida de um actor. Nós temos de viver, temos casas para pagar, filhos para alimentar. Nós temos de trabalhar, temos de ganhar dinheiro. É o cinema em Portugal não é expressivo ao nível de uma pessoa poder viver só de fazer cinema. Aliás, pode, mas são muito poucos os que o podem fazer.

E esses, nos últimos anos, terão enfrentado graves problemas, se tivermos em conta que a produção de cinema português praticamente parou.

Não há cinema. Os subsídios são cada vez menores - isto de resto é transversal à cultura toda. Agora quiseram voltar a ter Ministério da Cultura, mas vamos ver... Acho que é obrigatório termos um Ministério da Cultura. Os nossos governantes deviam olhar para a nossa população a médio e longo prazo. Mas não, só olham a curto prazo. O valor da cultura, da educação e da saúde é muito importante. Nós somos os livros que lemos, a música que ouvimos, o teatro que vemos. E a partir do momento em que se corta isso às pessoas é porque queremos que elas fiquem estúpidas, não pensem e não consigam perceber o que é certo e o que é errado. E assim fazer com que elas não tomem decisões.

Curiosamente, apesar de nos últimos anos termos tido cada vez menos apoios, o público está num crescendo.

Sim, porque apesar de tudo as pessoas estão sedentas de cultura. Tenho essa experiência tanto em teatro como em música, com a minha banda. Mas há um desfasamento entre aquilo que as pessoas querem e aquilo que o governo acha que é cultura, que é ter um concerto do Quim Barreiros - e não tenho nada contra ele - nas festas da cidade. Isso também faz parte da nossa cultura, mas não pode ser só isso.

Tem trabalhado com vários canais, algo que antes era impensável. Recentemente fez uma novela na RTP, agora está na TVI. Não sentiu anticorpos ao regressar à estação de Queluz?

Nada, nada! Mas eu também sou uma pessoa muito respeitadora. Gosto que me respeitem, que respeitem o meu trabalho, ponho limites nas coisas e acabo por não dar muito valor ao que não tem valor. É isso para mim não tem valor. O importante é o trabalho, isso é a discussão das camisolas dos clubes. De resto nunca fui exclusivo de ninguém. Gosto da liberdade, gosto de poder escolher.

O poder saltitar entre canais é mais fácil porque não tem um longo historial de protagonistas?

Sim. Os protagonistas acabam por ser mais agarrados pelos próprios canais. São caras da estação. Eu fui protagonista com a RTP em “Os Nossos Dias”, fui protagonista no “Pedro e Inês”, também na RTP... Em ambos tive personagens únicas. Por exemplo, em “Os Nossos Dias” eu era o protagonista vilão, que é raro e delicioso. E era um produto diferente de uma novela da noite, era mais uma série de longa duração.

Sente falta de ter tido mais papéis de protagonista?

É sempre bom fazer um protagonista, não só ao nível da visibilidade, mas também ao nível da maneira como conseguimos fazer o nosso trabalho. Um protagonista tem muito mais cenas escritas, tem um percurso de personagem mais definido, dá para aprofundar muito mais. Agora, muitas vezes, os papéis secundários são mais interessantes porque são diferentes, são personagens mais fora do normal. Não são só os bonzinhos, são humanos, pessoas normais, com as suas contradições. Já fiz supporting roles muito engraçados que acabaram por ganhar dimensões maiores do que tinha sido pensado ao início. Aconteceu-me isso no “Anjo Meu”, na TVI, em que fazia um mendigo, e como gostaram do que eu estava a fazer, começaram a escrever mais e mais e ele ganhou uma dimensão muito grande. Mas não me importava de fazer mais protagonistas. Eu gosto é de trabalhar.

Portanto, gostava de fazer mais protagonistas, não por questões de ego, mas por poder trabalhar ainda mais?

Sim. Sou até um pouco avesso a isso do ego. Somos pessoas normais, com preocupações normais. O nosso trabalho é fazer as outras pessoas sentirem coisas.

O que nasceu primeiro: o actor ou o músico?

O actor. Comecei a fazer teatro com os meus pais, que faziam teatro amador com um professor do Conservatório. Faziam teatro cristão. O meu primeiro papel foi o menino Jesus. Ainda nem sabia ler, foi a minha mãe que me disse o texto e eu decorei. Depois fiz o Francisco dos Pastorinhos de Fátima.

Nessa altura começou logo a sentir que representar mexia consigo?

Dava-me algum gozo fazer aquilo, mas era quase uma obrigação porque os meus pais iam e eu e os meus dois irmãos também tínhamos de ir. Aquilo fazia parte de nós, não pensávamos a coisa de outra maneira. Perto dos 18 anos é que comecei a dar mais valor aquilo e a ter gozo com o que estava a fazer. Antes fazia porque me diziam para fazer. Ainda que me contem que eu já era muito concentrado. Dizem que eu estava fora de cena mas sempre em personagem, concentradíssimo para entrar em cena. Era já postura de profissional. Aprendi muito ali.

Continuou a fazer teatro com a família durante muito tempo?

Sim, porque depois a minha mãe criou um grupo de teatro juvenil. Mas mesmo assim continuava a achar que aquilo era uma brincadeira.

Quando não estava no teatro o que gostava de fazer então?

Nunca fui muito de jogar à bola, era mais de ler e ouvir música. Já gostava muito de cantar, apesar de ter começado a aprender guitarra lá para os 17 anos e só nessa idade é que percebi que sabia cantar. Eu era o sensível e o que se emocionava muito com tudo.

Era muito gozado?

Mais ou menos. Os meus irmãos entravam muitas vezes em conflito um com o outro e eu, como sou o mais velho, fazia de apaziguador.

Os seus pais faziam teatro amador, mas profissionalmente não tinham nada a ver com artes?

O meu pai trabalhava em turismo e a minha mãe era educadora de infância. Mas escrevia muitas peças de teatro e poesia.

Fazia teatro cristão. Imagino que tenha tido uma educação muito católica.

Sim. Fiz tudo. Fui baptizado, fiz a primeira comunhão, o crisma, a profissão de fé.

E mantém esses ensinamentos vivos?

Não. Desiludi-me com a igreja a partir dos meus 18 anos, quando comecei a ganhar consciência de uma certa maneira de pensar que não ia ao encontro daquilo em que eu acreditava. Havia um pensamento muito sectário, havia uma hierarquia e um culto do bem parecer. Lembro-me que uma das coisas que me fez entrar em grande choque foi que, numa missa de domingo, uma criança começou a chorar enquanto o padre dava o seu sermão e o padre parou o sermão e mandou os pais saírem da igreja porque estavam a incomodar. Aquilo chocou-me imenso. Os meus pais levantaram-se e saíram também. E atrás deles saiu mais metade da igreja. Isso marcou-me muito. Mas acho que há uma quantidade de ensinamentos morais que ainda mantenho e que passo aos meus filhos. Tal como a necessidade de ter fé.

Ao longo da vida, em momentos mais complicados, como a morte da sua mãe, não sentiu necessidade de regressar à Igreja?

Não, isso não me reaproximou da Igreja. Talvez me tenha reaproximado de Deus, de algo superior em quem deposito fé na busca de um sentido para as coisas. Mas a igreja é feita pelos homens e os homens são um dos grandes problemas do nosso planeta.

A sua mãe morreu em 2008, já era um homem feito. Nunca se é velho suficiente para perder a mãe?

Não, nunca. Até porque foi muito de repente. A minha mãe passou um Verão com alguns sintomas ligados ao estômago. Em Setembro foi ao hospital e mal fizeram exames descobriram logo que já estava em todo o lado. Foram três meses até morrer. Precisei de dois anos e tal até conseguir encaixar a morte da minha mãe. Foi muito repentino.

Precisou de ajuda para ultrapassar?

Da família e os amigos. E também o facto de ter a minha vida relativamente preenchida a nível criativo, com a minha banda, Mundo Cão, e com o trabalho de actor. E o meu filho Afonso deu-me muita força. Fazê-lo entender porque é que a avó tinha partido acabou por também me ajudar.

O seu filho Afonso também já lhe pregou um grande susto…

Sim, no ano passado. De repente apareceu uma coisa dentro dele que tinha de sair, e havia riscos de ser uma cosia má, mas correu tudo bem. Deixei de fumar no dia a seguir a ele ser operado, como promessa.

Nunca mais fumou?

Nunca.

O papel de um filho que sofre por uma mãe é muito diferente do papel de um pai que sofre por um filho?

Muito diferente. Uma mãe, ainda que inconscientemente, estamos sempre a contar que vá à nossa frente. Agora, a possibilidade de um filho ir à nossa frente não a concebemos até sermos confrontados com ela. Nunca imaginei sentir o que senti.

Começou aos 17 ou 18 anos a perceber que afinal o teatro mexia consigo e, na mesma idade, começou a tocar guitarra e a perceber que sabia cantar. No meio disto tudo sentia-se diferente dos seus colegas porque não pensava ser economista nem engenheiro?

Sim, mas sempre estive muito ligado às artes. Fiz o meu secundário na António Arroio. O meu pai gostava muito que eu tivesse sido arquitecto e eu cheguei a concorrer à Faculdade de Arquitectura, mas não entrei. Para agradar ao meu pai estive um mês a trabalhar num ateliê de arquitectura na avenida 5 de Outubro, com um arquitecto muito velhinho que me fazia passar os desenhos dele a limpo. Num mês fiquei deprimidíssimo. Eram muitas regras e eu, admiro quem sabe, mas eu não sei lidar com muitas regras. Tive de dizer ao meu pai: “Desculpa, sei que gostavas muito que eu fosse arquitecto, mas isto não tem nada a ver comigo”.

Como é que ele reagiu?

Ficou preocupado. Principalmente porque nessa altura comecei a assumir mais o meu lado de actor e a trabalhar mais em teatro e a tomar opções que não iam ao encontro daquilo que eles achavam que era uma profissão segura.

Como assim?

Tinha estado a trabalhar com o Teatro Ibérico, fiz o “Auto da Barca do Inferno” e as “Sopinhas de Mel”. E depois fui para Os Satyros, que iam completamente ao encontro daquilo que eu acreditava que era a arte performativa. A primeira peça que vi deles foi logo “A Filosofia de Alcova”, do Marquês de Sade. Na altura vestia-me totalmente de preto, era gótico, ouvia Bauhaus, por isso achei aquilo tudo fantástico. Entretanto saiu um elemento da companhia e eles convidaram-me para o substituir. E quando eles foram em digressão pelos festivais de Europa - Avignon, Edimburgo, Londres... - fui com eles. Foi uma experiência alucinante. Só que os meus pais não estavam nada agradados com a ideia e disseram-me que, se eu fosse, escusava de voltar. E eu, a chorar baba e ranho, disse: “Mas eu vou!”. Curiosamente, quando voltei, e voltei para ir viver para casa deles, senti que tinha ganho o seu respeito.

Mas como o receberam?

Estavam cheios de saudades, foram três meses longe. Foram-me receber ao aeroporto.

A partir daí sentiu que tinha o aval dos seus pais para perseguir uma carreira artística?

Sim, senti. Aceitaram que era essa a minha opção. E disseram-me que estavam cá para me amparar no que fosse preciso.

E para si esses três meses foram fundamentais para ter a certeza de que era mesmo isto que queria?

Sim, absolutamente. É claro que os festivais de teatro são um ambiente muito fácil para sentirmos isso. O que se vive lá é único, há cultura em todo o lado, temos o privilégio de ver artistas de todo o mundo. Senti que era aquilo que queria para o resto da vida. Ainda por cima, nós não tínhamos dinheiro, então, para comermos, tínhamos de fazer performances de rua. Inventei uma performance completamente absurda: vestia-me de preto, pintava a cara de clown e punha-me em frente a uma caneca que estava no chão, mas ainda sem saber o que fazer. Quando atiraram a primeira moeda, desatei a ladrar. Ia mudando os animais de cada vez que atiravam uma moeda.

Quanto tempo ficou com eles?

Quatro anos e tal. Ainda vivia em casa dos meus pais, mas quase só lá ia dormir. Passava a vida com a companhia. Era uma vida de convívio. Íamos ao cinema todos juntos, íamos aos copos. Só não íamos mais porque não havia dinheiro.

O que o levou a sair d’Os Satyros?

Foi quando comecei a sentir que o caminho que eles estavam a querer seguir já não era bem aquele que eu queria. E eu queria muito experimentar outras coisas. Queria trabalhar com outras pessoas, experimentar outros encenadores. Eu tinha 25 anos.

Hoje em dia, já não é gótico?

Não. Agora sou um senhor gótico. [risos]

O que foi fazer quando saiu d’Os Satyros?

Entrei para a função pública. Concorri a um concurso da Câmara de Lisboa para técnico auxiliar de animação cultural. Fui colocado na Fonoteca Municipal, no Monumental. Trabalhei lá seis anos. E tive a sorte de ter chefias fantásticas que me permitiam ir fazendo teatro e até começar a fazer as primeiras coisas em televisão. Foi uma experiência incrível para ganhar a minha independência. Pude comprar um carro, comprar discos, roupa… Tinha um ordenado e subsídios!

Foi nesta altura que começou a colaborar com o Teatro Aberto?

Sim, eles fizeram uma audição para um ciclo de juventude e eu fui escolhido para fazer “OS Pêssegos”, do José Wallenstein, e “Às Vezes Neva em Abril”, com o João Lourenço.

O que o fez deixar a função pública?

Comecei a ser mais requisitado como actor e resolvi arriscar. Meti uma licença sem vencimento de dez anos.

Nunca sentiu falta de formação em representação?

Senti. Tanto que cheguei a candidatar-me ao Conservatório mas não entrei. Só anos mais tarde percebi que tinha faltado ao segundo dia de audições porque não sabia que existia. Mas fui sempre fazendo vários cursos. E fui sempre aprendendo com as pessoas que se cruzaram comigo. Mas tenho pena de não ter tido uma formação mais formal.

A televisão era algo que desejava ou que aconteceu?

Ao início não era muito, até porque havia o tal preconceito. Mas depois, em 2002, fiz o “Amanhecer”, que foi a primeira novela que fiz e adorei fazer. A televisão espicaça os atores e eu gosto, e preciso, disso. A repetição entedia-me.

Agora dá por si com o pensamento oposto, que é querer fazer teatro e não ter tempo?

Sim, mas eu até tenho conseguido conciliar. Fiz agora o “À Espera de Godot”, antes fiz a “Vénus de Vison”. E agora vou arrancar com o “Boas Pessoas”, também no Teatro Aberto. Eu gosto muito de fazer teatro. Só me chateia um pouco a parte dos ensaios porque estamos ali dois meses e não temos vida. Mas depois, o espectáculo, em directo, gosto muito de fazer.

Disse, em tempos, que o facto de ser actor foi sempre um empecilho para o músico.

É verdade. Os ditos intelectuais da musica não conseguem dissociar-se da ideia da banda do actor e isso é muito limitativo para os Mundo Cão. Há pessoas, profissionais, que dizem que nem vão ouvir o CD porque eu sou das novelas. Há rádios que não nos passam porque sou eu o vocalista. Mas a mim as contrariedades fortalecem-me. Eu habituei-me a ser gozado na escola porque ia de botas da tropa e olhos pintados de preto. Sempre fui visto como o gajo esquisito que era fácil de insultar. Claro que isto me chateia, mas as pessoas que nos ouvem gostam e isso é o mais importante.

Quando sobe a palco é a personagem do músico que está ali?

Sim, tenho de ser porque eu sou tímido. Mas a musica faz-nos sentir coisas que mais nenhuma arte nos faz sentir. Em palco gosto de ser provocador, sobretudo em relação ao momento que vivemos politicamente. Gosto de tentar abrir os olhos das pessoas. O nosso país está a precisar disso.

E para tal tem estado bem rodeado, em termos dos colaboradores da sua banda.

Sim, temos o Adolfo Luxúria Canibal e o Valter Hugo Mãe. O que me fascina, acima de tudo, é a palavra. Não podemos endeusar a mediocridade, que é algo que se faz muito aqui em Portugal. Mas eu não sei lidar com a estupidez... Mas não entro em confronto, simplesmente ignoro.

No dia-a-dia é difícil gerir a vida do actor com a do músico?

É tudo uma questão de agenda. E os Mundo Cão não ensaiam regularmente, trocamos muitas ideias à distância e devez em quando juntamo-nos uns dias em Braga para ensaiar.

Porquê em Braga?

Porque foi lá que a banda foi criada.

Com tantas valências na área das artes, quando tem de preencher um impresso, o que escreve?

Escrevo sempre artista. É o que sou e não quero escolher entre as coisas que sei fazer. 
 

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