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Rita Berkowitz. A tragédia também tem direito a tiara

Rita Berkowitz. A tragédia também tem direito a tiara

Raquel Carrilho 09/12/2015 18:05

Nasceu na Roménia, mas teve de fugir da sua cidade para sobreviver aos nazis. A viver em Israel desde 1951, Rita Berkowitz, de 83 anos, acaba de ser eleita Miss Sobrevivente do Holocausto.

Aqui não há desfile em fato-de-banho ou biquíni. Muito menos mulheres esculturais, com narizes retocados e mamas aumentadas. E mais, todas as concorrentes já têm filhos e netos, e algumas até bisnetos. Também ninguém tem intenção de acabar com a guerra e a fome no mundo. O que estas mulheres querem, todas, é que o Holocausto e os seis milhões de judeus mortos às mãos dos nazis durante a iiGuerra Mundial não sejam esquecidos. E querem homenagear os sobreviventes. Por isso se candidataram à terceira edição da Miss Sobrevivente do Holocausto, em Haifa, no norte de Israel.

“A ideia de organizar este evento não era premiar a beleza destas mulheres, mas antes a sua luta. Quem nos dera a todos termos a sua força e alegria”, explica Tami Sinar, porta-voz da associação Yad Ezer Le Javer, que ajuda cerca de 200 mil sobreviventes do Holocausto, residentes em Israel. A organização, responsável por esta Miss Sobrevivente do Holocausto, acredita que o concurso “dá força a estas mulheres que, na maioria, têm uma baixa auto-estima”. Uma ideia reforçada por Jurgen Buhler, director da Embaixada Internacional Cristã, em Jerusalém, um dos patrocinadores do evento. “Muitas destas mulheres eram crianças, adolescentes e jovens adultas aquando do Holocausto.Estiveram em guetos e campos de concentração, e esta noite dá-lhes algo que nunca tinham tido oportunidade de viver quando eram mais novas.”

No total foram 13 candidatas, tendo a mais nova –Rivaka Stenger – 74 anos, e a mais velha – Rebecca Kushner – 86 anos. Todas foram ensinadas a desfilar e tiveram à disposição uma equipa de cabeleireiros, maquilhadores e personal stylists. Tal e qual como as profissionais.

A grande vencedora, Rita Berkowitz, 83 anos, nasceu na Roménia, mas vive em Israel desde 1951. Tem um filho, seis netos e cinco bisnetos. Os nazis invadiram a sua cidade natal, Iasi, e aí mataram 15 mil judeus. “Levaram o meu pai para um campo de trabalho forçado e daí quiseram levá-lo num daqueles comboios rumo a parte incerta.Por sorte, conseguiu fugir, ainda que sob fogo”, recorda Rita.

Ao receber o ceptro, a tiara e a faixa – naturalmente, azul e branca – das mãos da israelita de origem etíope Yityish Aynaw, que em 2013 se tornou a primeira Miss Israel negra, Rita não escondeu a felicidade. “O grande objectivo é fazer com que as pessoas falem do Holocausto.Temos medo de que, depois de morrer esta geração a que pertenço, já ninguém queira recordar o que se passou.” E também não há que esconder que qualquer mulher, seja de que idade for, gosta de cuidar de si como uma princesa, nem que seja apenas uma vez na vida. “Na Europa dos anos 30 estávamos demasiado preocupados com tentar sobreviver e não ser assassinados pelos nazis para nos preocuparmos com a beleza.”

Apesar deste entusiasmo por parte da vencedora, a iniciativa não é unânime, havendo quem aponte o dedo à forma pouco digna de homenagear os sobreviventes do Holocausto.A organização, no entanto, contrapõe com o facto de o concurso ter a ver com “reconhecimento e respeito” e ser, por isso, algo positivo. Rita Berkowitz partilha da opinião da organização, como, aliás, deixou claro no seu discurso de agradecimento, perante uma plateia de cerca de 600 pessoas e cumprindo todos os tradicionais gestos de uma verdadeira miss: “Não nos rendemos, por muito que nos tenham querido assassinar. Espero que todos os judeus do mundo venham para Israel. Assim seremos mais fortes. Nós não temos medo de ninguém e nunca iremos desaparecer da face da terra. Quanto a mim, sinto que estou a viver outro momento de vitória na vida.”

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