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Yves Saint Laurent e Pierre Bergé. O amor não foi feito para ocupar prateleiras

Yves Saint Laurent e Pierre Bergé. O amor não foi feito para ocupar prateleiras

Raquel Carrilho 14/12/2015 16:05

Viveram uma história de amor de 18 anos. Separaram-se em 1976, mas nunca deixaram de fazer parte da vida um do outro. Desde a morte de Saint Laurent, em 2008, o seu ex-companheiro, amigo e sócio, Pierre Bergé, tem vendido tudo o que possuíam juntos para financiar a abertura de dois museus dedicados ao designer de moda - a última venda aconteceu ontem: uma biblioteca de 1600 livros raros.

Há histórias de amor que nunca terminam, que são maiores do que a vida. Amores que nunca nos abandonam. Yves Saint Laurent e Pierre Bergé viveram um desses amores. Conheceram-se em 1958 e três anos depois inauguraram a Yves Saint Laurent Couture House. Juntos construíram um amor, uma relação, uma vida e uma das mais importantes casas de moda do mundo. Em 1976 separaram-se, mas o amor – o tal que é maior do que a vida – fez com que nunca deixassem de fazer parte da vida um do outro. Como amigos, como sócios, numa parceria para a vida. Pouco antes da sua morte, em 2008, Saint Laurent e Pierre Bergé ter-se-ão casado, como forma de celebrar essa parceria. Quando viu morrer o seu grande amor, Pierre Bergé nunca abandonou a cabeceira de Saint Laurent e afiançou que continuaria a dirigir a fundação Pierre Bergé-Yves Saint Laurent e a manter viva a memória e o trabalho do designer.

Homem de uma elegância discreta, Bergé, de 85 anos, foi sempre o comandante da YSL, dando ao homem que amava todo o espaço necessário para que este criasse sem qualquer outra preocupação que não exactamente essa: criar roupa. “A moda não é arte, mas é necessário um artista para fazer moda”, disse numa entrevista antiga. Saint Laurent foi sempre o sonhador, Bergé o pragmático. “Havia um muro de Berlim entre nós”, costumava dizer Bergé acerca da gestão da empresa. Este não se imiscuía no processo criativo e Saint Laurent não tratava de nada da área financeira. Essa responsabilidade era exclusiva de Bergé que, ao longo dos anos, foi enriquecendo a parceria ao construir uma das maiores colecções privadas de arte e livros do mundo

Curiosamente, após a morte do designer, essa colecção tornou-se asfixiante. Cerca de um ano após a morte de Yves Saint Laurent, Bergé vendeu toda a sua colecção de arte, que incluía obras de Matisse, Cezanne and Klimt, entre outros. Aquele que foi considerado o leilão do século rendeu 3739 milhões de euros. Em Outubro deste ano vendeu as suas peças de arte islâmica. E ontem a Sotheby’s leiloou a primeira tranche da sua colecção de livros dos séculos XV a XX, considerada uma das mais raras e valiosas bibliotecas privadas, resultado de mais de 60 anos de compras. Uma colecção com um valor estimado de 42 milhões de euros.

Entre as obras que a leilão, destaca-se uma primeira edição das “Confissões de Santo Augustine”, impressa em Estrasburgo, em 1470; “A Divina Comédia”, de Dante, de 1487; um exemplar de “D. Quijote”, de Cervantes, datado de 1605 e ainda as notas de Marquês de Sade para a sua última novela erótica. Flaubert foi sempre o seu autor favorito e um dos mais representados na colecção. Bergé era proprietário de um manuscrito de “Educação Sentimental”, publicado em 1870, bem como de um exemplar de “Madame Bovary”, com uma dedicatória do próprio Flaubert para Victor Hugo: “Au maître. En souvenir et hommage”. Em contrapartida, nas prateleiras desta biblioteca não constavam obras de Camus nem Malraux. Bergé não é fã do seu trabalho.

Estes livros eram fardos e não recordações de um amor. Bergé não é nostálgico. Mais, sabe o que quer fazer com o dinheiro. A maior parte das receitas das deste leilão destinar-se-ão a causas ligadas à luta contra a sida e para a fundação Pierre Bergé-Yves Saint Laurent que prevê inaugurar, em 2017, dois museus, um em Paris e outro em Marraquexe, ambos dedicados ao designer de moda. Ver-se lvre destes objectos é a forma de Bergé manter viva a memória de Saint Laurent. “É um homem duro. Quando decide que vai vender algo nem olha para trás. Nunca se arrepende e não sabe o que é a nostalgia”, conta Michel Scognamillo, o bibliotecário pessoal de Bergé. “Aprecia a beleza física do livro. Mas não independentemente do livro propriamente dito, apenas colecciona livros que já leu ou que quer ler”, conta Scognamillo.

De resto, os livros foram parte da sua profissão e a leitura foi sempre a sua paixão, uma paixão que, no entanto, não partilhava com Saint Laurent, home que apenas leu “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust. 

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