26/3/17
 
 
Ana Sá Lopes 01/03/2016
Ana Sá Lopes
Política

ana.lopes@ionline.pt

Faz-se pouco sexo. Capítulo primeiro

A Vanessa convenceu-se de que, ao contrário do que os media propagam, cada vez se faz menos sexo. Depois de ter investigado o assunto, decidiu escrever uma novela com o título “Faz-se pouco sexo”. Numa noite desta mostrou-me o primeiro capítulo.

Vanessa decidiu começar a fazer uma novela. Deu-me a notícia à bruta, sem qualquer espécie de preliminares, enquanto comíamos umas salsichas no Snob.

- Já tenho um nome espetacular. Mesmo bom, mesmo bom. Vai ser um sucesso editorial. Vou num instante para os tops. Aposto contigo um mês de ordenado.

A auto-estima inflacionada é uma coisa boa, mas eu não aposto um mês de ordenado com ninguém.

- E qual é o nome?

- “Faz-se pouco sexo”. Não achas ótimo?

- Sei lá, mais ou menos.

- Mais ou menos???

A Vanessa ficou um bocadito ofendida por eu não estar a partilhar toda aquela exaltação. Eu fiz um esforço para mostrar alguma empatia, mas estava muito cansada.

- Desculpa, Vanessa, mas é que estou mesmo muito cansada. Estou aqui, mas na realidade apetecia-me estar deitada no meu sofá com as mantas. É só por isso que estou a responder como se não estivesse verdadeiramente interessada, o que é mentira.

A minha desculpa foi um excelente pretexto.

- Estás a ver como eu tenho razão em que se faz pouco sexo? Toda a gente anda cansada! As pessoas falam, falam, mas não fazem nenhum sexo.

- Acho que não se pode ser tão radical, argumentei eu, que não gosto de extremismos.

- Genericamente não se faz sexo. No casamento toda a gente sabe que não se faz sexo. Eu fui casada três vezes e sei bem como é. Sexo misturado com contas conjuntas, a loiça por lavar e as crianças é a coisa menos sexy que há!

A Vanessa dava-lhe para estas coisas definitivas e obviamente falsas. Toda a gente sabe que o casamento é o sítio onde se faz mais sexo. As pessoas dormem juntas na mesma cama e algumas até engravidam, que é a única prova definitivamente válida da existência de sexo, com a exceção das gravações e fotografias que não cabem na vida de pessoas decentes.

- Enganas-te!

A Vanessa teimava no assunto.

- Tu não percebes nada. Na verdade, não há sexo nem dentro do casamento nem fora do casamento. Andei a fazer uns estudos e percebi que, ao contrário do que a cultura pop inventou, ninguém faz sexo. Olha à tua volta. A maioria das pessoas que anda por aí são genuínos praticantes da castidade, mesmo sem votos e mesmo que não sejam devotos.

- És muito exagerada. E até parece que tens razões de queixa!, respondi eu

- Não me posso queixar muito, mas é evidente que a minha vida também poderia ser muitíssimo melhor.

Mas, vá lá, queres ler o início da novela ou não?

Eu queria. Ela passou-me umas folhas de papel A4.

“Joana e Rui tinham-se conhecido há dois meses no Lux”.

- Fogo, no Lux?

- Qual é o mal?

- Mas isto é uma história verídica?

- Claro que não! Isto é ficção, é arte, parto de uma impressão sobre a realidade para expandir os meus horizontes artísticos.

“Joana e Rui tinham-se conhecido há dois meses no Lux. Ela tinha acabado de se divorciar, mas achou-lhe piada. Jantaram cinco vezes. O Rui dominava por completo a Zomato, gostava de comer e os homens que gostam de comer têm sempre um “surplus”. Rui era tímido, o oposto do que mostrava quando começava a falar das “gajas” lá no trabalho. Foi a Joana que lhe tocou pela primeira vez e lhe mostrou aqueles olhos dengosos e patetas que as mulheres fazem quando estão com vontade de saltar etapas. Rui embebedou-se e propôs uma viagem ao Porto”.

- Mas vai haver sexo???

- Tens que ler até ao fim [continua]

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