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Kasparov. Xeque a Putin

Kasparov. Xeque a Putin

Afonso de Melo 31/10/2016 19:06

O antigo campeão do mundo de xadrez escolheu o seu ódio de estimação na figura do presidente russo. "O projeto de Putin é como o antigo projeto de Hitler - uma conspiração da elite dominante do país", escreveu.

Com Karpov era entre mim e ele, face a face. Com Putin não se pode jogar”. A frase é do grande vencedor de Anatoly Karpov e desafiador de Vladimir Putin: Garik Kimovich Kasparov. Nascido em 13 de Abril de 1963, em Baku, no Azerbaijão, então União Soviética, Kasparov sempre foi um desafiador. A começar pelo nome, que cedo mudou. O seu apelido era Weinstein, herdado do pai, um judeu russo chamado Kim Moiseyevich Weinstein. Após a morte deste, adotou o nome de família da mãe, Klara Shagenovna Gasparian, adaptando-o para a versão russa - Kasparov. Quanto à religião, assumiu-se: “cristão autodidata”.

No dia 14 de Abril de 2007, Kasparov estava preso. Promotor de uma manifestação pró-democracia, em Moscovo, viu a polícia avançar e proceder a detenções a esmo. Todos os manifestantes foram levados. Garry, como é conhecido, foi interrogado durante dez horas. Em 2012, 17 de Agosto, foi espancado e novamente detido à porta do tribunal no qual seria anunciado o veredicto sobre o caso da banda feminina punk Pussy Riot. Ninguém diria que fora eleito para o Comité Central da Komsomol, a juventude do Partido Comunista soviético, com a idade de 24 anos. A sua solidariedade com o partido durou pouco. Até 1990.

Às vezes, parece fácil esquecer que Garry Kasparov foi campeão do mundo de xadrez. A sua atividade política, interventiva em diversas áreas - acaba de ser publicado, em Portugal, o seu livro “O Inimigo que Vem do Frio” (ed. Clube do Autor) - foi apagando o jogador genial que disputou o seu primeiro título mundial em 1984, um acontecimento único na história do jogo. Nunca dois xadrezistas estiveram tanto tempo a uma mesa como Karpov e Kasparov: 48 partidas. Muito para lá do famoso Capablanca-Alekhine de 1927, que se ficou nas 34. E nunca houve, como esse, um campeonato sem fim: Florencio Campomanes, presidente da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), anunciou a sua decisão numa conferência de imprensa - a saúde dos jogadores podia estar em risco, pelo que interrompia a disputa. Karpov estava com uma vantagem de 5-3, mas estivera a vencer por 5-0. Kasparov não perdoou a Campomanes. Veio, mais tarde, a candidatar-se ao cargo, numas eleições contra Ilyumzhikov, mas perdeu. E pior: viu-se envolvido num caso pouco claro de compra de votos das associações asiáticas. 

Um estilo inconfundível 

Muito se procurou colar o estilo de jogo de Kasparov com o de outros xadrezistas do passado, sobretudo Alekhine, o russo que obteve a nacionalidade francesa e que morreu num quarto de hotel no Estoril. O próprio não negou a influência do velho mestre, mas Kramnik, seu adversário e um dos grandes estudiosos do seu jogo, seria mais prático na apreciação: “Não há nada no xadrez com que ele não seja capaz de lidar. Diria que é inconfundível!”

Finalmente derrotou Karpov na nova final do campeonato do mundo disputada em Moscovo, em 1985. Para que não se repetissem os acontecimentos do ano anterior, decidiu-se que haveria um limite de 24 partidas, determinando-se como vencedor o primeiro a chegar aos 12 pontos e meio. Kasparov venceu por 13-11. Depois foi repetindo as doses, batendo o seu maior opositor em 1986, 1987 e 1990. 

A guerra com a FIDE nunca saiu da sua vontade: viria a excluir-se da federação e a fundar a Professional Chess Association. Durante 13 anos, houve dois campeões do mundo em simultâneo.

Partido Democrático

A atividade política de Garry Kasparov tornou-se frenética a partir de 1990. Toma parte na fundação do Partido Democrático da Rússia, que começou por ser um partido liberal e anticomunista, tendo mais tarde sofrido uma deriva centrista. Avança, dois anos mais tarde, para a Escolha Russa, um bloco partidário, e apoia Boris Yeltsin nas eleições de 1996.

Vladimir Putin tornou-se o seu ódio de estimação. Raro foi o movimento ou manifestação contra Putin em que Kasparov não tenha participado. A unanimidade que conquistara como xadrezista dispersou-se. Chegou a ser agredido na cabeça com um tabuleiro por um antigo admirador, furioso pelas suas novas escolhas.  Anunciou-se como candidato às eleições presidenciais de 2007, pela coligação Outra Rússia e viu-se, de novo, envolvido em distúrbios que lhe valeram outra prisão, desta vez durante cinco dias. Putin começou a responder aos seus ataques e acusou-o de falar mais inglês do que russo. O antigo diretor da KGB, Oleg Kalugin, veio a público considerá-lo um alvo fácil: “Há alguém que fala demais, o antigo campeão do mundo de xadrez, Kasparov. Os seus ataques a Putin são violentos e acho que pode ser o próximo da lista”. 

“O fascismo regressou à Rússia”, escreveu entretanto Kasparov. “O projeto de Putin, como o antigo projeto de Hitler, é fruto de uma conspiração da elite dominante no país”. A sua luta promete não ter tréguas. Mesmo que nunca atinja um xeque-mate... 

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