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Livros em 2017. Um cenário de canibalização editorial

Livros em 2017. Um cenário de canibalização editorial

Diogo Vaz Pinto 04/01/2017 13:02

Uma oferta bem acima da procura é o resultado da forma como o meio editorial prossegue a sua fuga para a frente na tentiva de contornar a crise económica e o escasso número de leitores

Como de há uns bons anos a esta parte, logo após soar o disparo na linha de partida para a corrida editorial ao ouro da atenção de um, cada vez mais, magro público, de imediato se ergue uma tal nuvem de pó que logo ficamos siderados com a plêiade de autores que, contra um mercado cada vez mais adverso, continua a assaltar os escaparates, ainda que seja um jogo de capturar a bandeira e semanas depois ser rendido pela leva seguinte. O calendário de edições previstas para os primeiros meses de 2017 garante-nos já que este ano continuará a promover a descolagem do meio editorial face à realidade, com uma carga de cavalaria formidável a avançar nos diferentes géneros para encontrar do outro lado um número cada vez mais residual de leitores.


É evidente, por um lado, que a ficção continua a liderar as apostas no campo da literatura, mas seja no romance ou nos géneros tidos como minoritários, a tendência, que começa a assumir contornos preocupantes, é para uma aposta sempre mais forte nos autores estrangeiros, com as editoras a terem um papel cada vez mais tímido na hora de arriscar em autores novos ou menos conhecidos. A literatura portuguesa é hoje um terreno que começa a dar sinais de desertificação, entre as miragens que se erguem e se desfazem na sua própria soberba, vão-se observando cada vez menores movimentações, e nisto tem influído decisivamente a obliteração do papel da crítica como, também, a inexistência de uma imprensa plural e menos anémica, capaz de reactivar no campo da literatura a sua natural propensão polemista.


A escassez de tempo numa sociedade orientada para se manter sempre ocupada, e que dá o que resta de si ao lazer, ao passo que se se reserva algumas horas para o ócio fá-lo mais para aplacar um certo mal de consciência, gera um cenário que conduz naturalmente à falta de leitores, e, quanto mais restrito o público, maior é a canibalização entre as editoras, que não têm alternativa senão bater-se por cada leitor, por cada destaque na imprensa, enquanto nas livrarias reina a lei da selva.


Ainda reflexo do fenómeno da concentração editorial, a partir do momento em que as editoras perderam identidade e um cunho autoral, apostando nos departamentos de marketing mais do que em desenvolver uma intervenção cultural, foi-se assistindo à estabilização do panorama literário, existindo hoje um cânone raramente sujeito à prova, e que está ao sabor de efeitos de promoção e das vendas, com alguns dos autores mais celebrados a serem, em alguns casos, exemplo de uma literatura incapaz, sequer, de ombrear com a novidade e força das gerações que a precederam.


Assim, nos nossos dias, aqueles autores que desde há um pouco mais de uma década foram mediatizados enquanto promessas, estão ainda sob o efeito desse élan, e tornaram-se ‘eternas revelações’ embora as fórmulas estejam gastas, persistindo no limite da caricatura. De resto, numa situação em que a oferta continua a superar generosamente a procura, e dado o alheamento e a debilidade da produção académica, os prémios e outros mecanismos prestigiantes e divulgadores continuam capturados, e, na sua agonia, o meio literário não passa de uma triste fantasmagoria.


Há géneros como o ensaio, a crítica, estudos nas áreas das ciências sociais, toda a não-ficção que não se confunde com livros de auto-ajuda ou as extensões carnavalescas dos agentes mediáticos, que continuam relegados para as pequenas ou mais discretas editoras. É o caso da poesia e do teatro. Não havendo leitores em número nem uma massa crítica para garantir programas editoriais autónomos, ambiciosos e pensados para um público nacional, resta andar ao sabor do vento e à boleia dos fenómenos internacionais, das febres que garantem as massas de ar do marketing global.


Merece destaque neste momento o esforço que, à frente do Teatro Nacional D. Maria II, Tiago Rodrigues tem feito ao apostar na edição do trabalho de dramaturgos e tradutores, um precioso salva-vidas que poderá revelar-se vital para o teatro português, numa altura em que as raras colecções que o garantiam acabaram por não ter continuidade. Quando o lucro é o factor determinante, e se a formação do gosto é inexistente, alguma da mais importante produção cultural está condenada, ficando à mercê de programas de apoio à edição.


A Relógio D’Água merece particular atenção, e continuará em 2017 a sua triunfante e até avassaladora marcha no campo literário, com apostas ao nível tanto da contemporaneidade como no dos clássicos. Já para Janeiro promete títulos como “A Poesia como Arte Insurgente”, de Lawrence Ferlinghetti, e “Desobediência Civil”, de Hannah Arendt, e, no plano do Projecto Shakespeare, terá mais quatro peças do insuperável bardo publicadas. Será publicada uma selecção de entre a centena e meia de textos com que George Steiner contribuiu para as páginas da revista “The New Yorker”, isto já em Fevereiro, e podemos ainda contar com “A Arte da Vida”, de Zygmunt Bauman, e a tradução de Miguel Serras Pereira dos “Pensamentos”, de Blaise Pascal.

 

Francisco Vale, editor da Relógio D'Água

Neste primeiro trimestre, a editora de Francisco Vale prossegue portanto uma investida que tem algo de feroz, sendo hoje evidente como Vale se tornou o mais destacado editor literário português. O seu trabalho só não merece maior aclamação porque, apesar da fabulosa ambição do catálogo que dirige, dos tão amplos quanto firmes critérios que exerce, continua a faltar uma razão aplicada à realidade portuguesa.

Uma editora que prima pela sobriedade e opta declaradamente por não colaborar com os esquemas que forçam a vida dos livros a conformar-se às lógicas mercantilista e do entretenimento, a forma como a Relógio D’Água resistiu às transformações do sector e tem crescido, mantendo-se uma editora de média dimensão mas com uma expressão até dominadora face mesmo aos grandes grupos divididos nas suas várias chancelas, faz dela um caso de estudo e uma espécie de antídoto, e só é de lamentar a ausência de uma mais audaz componente interventiva. Além da tradução de muitos dos pensadores decisivos da contemporaneidade, tornou-se indispensável essa mesma margem no nosso contexto, com uma abertura e encorajamento a autores e obras que possam perturbar esta conjectura acrítica, reduzida a um simulacro, claustrofóbica. Não se avistam sucessores para um José Gil ou Maria Filomena Molder, no ensaio, nem para Hélia Correia ou Rui Nunes, na ficção. E não há nada mais urgente hoje que uma renovação e revitalização do próprio espaço literário português.


A este título, e depois de no ano passado a morte de André Jorge ter significado um dos mais rudes golpes para a edição independente, a editora que fundou e que era uma das mais notáveis expressões de um ideal de cultura abrangente e, ao mesmo tempo, teimosamente aventurosa, ao apostar em colecções perfeitamente definidas dentro dos tais géneros minoritários, terá em 2017 o ano da sua reestruturação. A nova equipa promete apresentar-se em breve e ao projecto, contando para já com duas novidades de autores da casa: "A gargalhada de Maya Villaça", romance de Jacinto Lucas Pires (Março 2017), e "Singularidades", livro de contos de A.M. Pires Cabral (Fevereiro 2017). A par disto, adiantou também que José Maria Vieira Mendes está a trabalhar na tradução de “Eine Glückliche Liebe” do escritor alemão Hubert Fichte.


A Antígona prepara para os próximos dois anos a publicação de várias obras de Eduardo Galeano, um dos mais inspirados, originais e combativos autores latino-americanos. Depois de uma primeira aparição com dois títulos no catálogo da extinta Livros de Areia, o poeta uruguaio que morreu em 2015 terá assim uma segunda hipótese de se ver um pouco mais divulgado no nosso país. O primeiro título será o clássico “As Veias Abertas da América Latina” – um estudo sobre a exploração económica, política e social do continente sul-americano, primeiro pela Europa e, mais tarde, pelos EUA, originalmente publicado em 1971 –, depois chegará a vez de “Espelhos”, e em 2018, chegarão “O Caçador de Histórias”, “Mulheres”, “Palavras Errantes” e “O Livro dos Abraços”.


Outra editora que buscará resistir às dinâmicas do negócio dos livros apostando em novas traduções de clássicos, como Flaubert, Verne, Victor Hugo, etc., é a Cavalo de Ferro, que para 2017 tem também prevista a edição do livro de ensaios literários de Elias Canetti, “A Consciência das Palavras”, os contos “Octaedro” de Julio Cortázar, um novo romance de Cynan Jones, “The Cove”, e a aposta na autora húngara Magda Zsabó e nos seus romances: “Rua Katalin”, “A Balada de Iza” e “A Porta”. 


Depois de ano e meio de actividade, com 22 títulos publicados, apostando em êxitos irreverentes e obras decisivas como as de Svetlana Alexievich – que regressará em Março com “Rapazes de Zinco” –, na Elsinore o ano começa de forma auspiciosa com “Naquela Língua - Cem Poemas e Alguns Mais”, a primeira antologia da novíssima poesia brasileira lançada em Portugal, com selecção e organização de Francisco José Viegas. São 18 os poetas escolhidos, todos com obra publicada exclusivamente no século XXI: Alice Sant'Anna, Ana Guadalupe, Annita Costa Malufe, Caco Ishak, Diego Callazans, Laura Assis, Laura Liuzzi, Leonardo Marona, Luca Argel, Luis Maffei, Maíra Ferreira, Maria Rezende, Mariano Marovatto, Marília Garcia, Naiana Amorim, Nina Rizzi, Roberta Ferraz e Tatiana Pequeno. 


Por sua vez, no trabalho do maior grupo editorial português, a Porto Editora, chamamos a atenção para a publicação de “O Quarto Enorme”, de E. E. Cummings, através da chancela Livros do Brasil. Considerado o mais importante trabalho em prosa do poeta e uma das grandes obras de ficção norte-americana sobre a primeira guerra mundial, esta chega ao nosso país pela primeira vez, cem anos depois da sua publicação original. Destacamos ainda, pela chancela Assírio & Alvim, a publicação de “Épico de Gilgamesh”, geralmente considerado o mais antigo poema longo a chegar até aos nossos dias; este épico da Mesopotâmia tem uma história de cerca de 4.000 anos. Fala dos fascinantes e comoventes feitos heróicos de Gilgamesh e da sua busca da imortalidade.

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