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Darrell Kastin. Um escritor luso-americano e os seus subterrâneos

Darrell Kastin. Um escritor luso-americano e os seus subterrâneos

Vamberto Freitas 09/02/2017 16:10

Luso-descendente, Darrell Kastin nasceu e foi criado em Los Angeles. O seu novo romance, "Shadowboxing With Bukowski", um conjunto de pequenas histórias, todas elas em volta de uma livraria com o nome de The Little Big Bookshop, numa clara paródia ao famoso livro de Thomas Berger, "The Litte Big Man"

É certo que qualquer escritor tem a sua própria história de vida, as suas próprias referências particulares, pessoais, familiares ou literárias. No caso de Darrell Kastin – Kastinovich na presente obra – mais ninguém entre os luso-descendentes norte-americanos poderia ter escrito um romance, ou biografia romanceada, como este. Não será fácil, mesmo que procurássemos, encontrar um luso-americano com semelhante descendência, mas parte da riqueza de uma sociedade multi-étnica e multicultural reside precisamente nesse facto, em homens e mulheres que traçam as suas origens às mais variadas geografias e circunstâncias ancestrais.

O nome do autor do romance "The Undiscovered Island" e dos contos "The Conjurer & Other Azorean Tales" de modo algum insinua que ele é descendente de mãe açoriana, filha da família picoense Canto e Castro que emigrou para os EUA após a Segunda Grande Guerra, e de pai judeu russo, cujo nome raramente, ou nunca, aparece em notas biográficas do autor. Darrell Kastin nasceu e foi criado em Los Angeles, e é em San Pedro, onde fica localizado o grande porto daquela metrópole, que decorre – com um breve desvio no México – toda a história e trama deste seu novo romance, "Shadowboxing With Bukowski", que poderá ser traduzido livremente por “em luta ou boxe imaginário com Bukowski”.

É mesmo desse que falamos, de Charles Bukowski, o poeta e escritor fora-da-lei e fora-de-tudo que residiu boa parte dos seus últimos e mais produtivos anos naquela cidade de marujos, imigrantes e outros, ou em busca de um sonho qualquer ou conformados nas margens sem saída rodeadas de bares de má fama com olhos no Pacífico, que é o fim da aventura novo-mundista, não os levando a mais lado nenhum, o fracasso como modo de vida e atitude filosófica.

Acontece que vivi durante mais de vinte anos ali por perto, mas raramente punha lá lá os pés, mesmo sabendo que era onde residia um dos mais subterrânicos escritores da nossa actualidade, vindo do nada e de toda a  parte, só tornado conhecido no seu país por largos números de leitores – era já uma espécie de ídolo literário na Europa, especialmente na Alemanha, de onde tinha nascido de pai alemão-americano e mãe com origens na cidade de Danzig – após o famoso e inesquecível filme Barfly, em 1987, com Mickey Rourke e Fay Dunaway. Alguns dos seus livros, prosa e poesia, viriam muito mais tarde a ser publicados em Portugal, como "Mulheres", "Correios" e "Música para Água Ardente".

O romance "Hollywood", também publicado entre nós, resultou, mais ou menos, das suas andanças entre os magnatas e estrelas naquela outra parte mítica de Los Angeles durante as filmagens da sua vida de bêbado e marginal absoluto. Se menciono com algum pormenor este outro autor é porque a presente obra de Darrell Kastin assim o requer. Foi ele o único entre nós que conheceu e conviveu de perto com o hoje famoso autor, que frequentava a livraria que Darrel Kastin teve por algum tempo em San Pedro, como indica o título do livro, que também, uma vez mais, estará algures entre a realidade e a ficção.

"Shadowboxing With Bukowski" é feito de um conjunto de pequenas histórias, todas elas em volta de uma livraria com o nome de The Little Big Bookshop, numa clara paródia ao famoso livro de Thomas Berger, "The Litte Big Man". O seu proprietário-gerente é Kastinovich, que aparentemente a comprou com financiamento do pai no começo de uma vida, que inclui já um casamento instável e uma filha de pouco mais de um ano de idade, que passa os dias deitada no seu carrinho vista através da montra pelos transeuntes e pelos pouquíssimos leitores que entram para espreitar um ou outro livro, raramente comprando-os mesmo a preços simbólicos nos anos 80, a era de Reagan pouco dada à reflexão e muito menos à literatura séria. Aliás, a narrativa na primeira pessoa é constituída  por um chorrilho de queixas e cómicos azedumes de Kastinovich, que passa os dias e as noites quase só entre os seus livros, dizendo que por vezes os ouve dialogar uns com os outros, olhando de lado os clientes que optam pela literatura mais “popular”, de auto-ajuda ou ficção cor-de-rosa e light.

Enquanto passam as horas e os dias quase totalmente vazios, o narrador vai falando do que acaba por ser uma espécie de cânone literário do Ocidente, desde Shakespeare até à contemporaneidade, obsessivamente lembrando e comentado os seus favoritos, como o esquecido romance "Ask The Dust", do também esquecido escritor John Fante, que durante os anos 20-30 “retratou” Los Angeles a partir das margens e dos seus subterrâneos, e que naturalmente teria sido uma das referências primeiras do próprio Charles Bukowski, que no tempo ficcional desta narrativa já tinha finalmente conquistado um lugar proeminente na literatura americana, mesmo que ainda nessa altura a academia fazia que não dava por nada, ou simplesmente não conseguia catalogá-lo ordenadamente numa das muitas teorias literárias da moda que então reinavam entre os estudiosos.

Bukowski, para seu pecado ainda mais ofensivo, era um bêbado ordinário cuja única ideologia seria a sua própria sobrevivência numa sociedade que ele detestava com o mesmo grau que detestava todas as outras, e desconfiava da suposta “bondade” humana. Kastinvoch tem-no simultaneamente como autor admirado e fonte de ansiedade de influência, o poeta e escritor uma sombra que morava ali perto e era visto quase diariamente no outro lado da rua a conversar com um velho imigrante romeno dono do restaurante Ka-bob, que tanto se lhe dava que gostassem da sua comida como caíssem mortos à sua frente.

É este, pois, o cenário principal do romance, quase todo ele um monólogo do falhado e infeliz protagonista. Resta-lhe quase só uma mulher solteira de nome Katherine, que visita a livraria e desperta em Kastinovich todas as fantasias de cama e de futuro, tudo quanto contradiz imaginariamente a sua apagada existência, a visita do pai e as suas palavras sobre o negócio emborcado um outro contraponto tão agudo como a sua vida de casado com uma mulher que apenas existe no silêncio e na negação de qualquer prazer conjugal. Por uma única vez lemos a palavra, sem qualquer outra explicação, “Azores” como sendo um dos pontos de refúgio mais desejados pelo narrador. De resto, o que fica é como que uma prolongada meditação existencialista, em que o seu sujeito tenta avaliar, rejeitar e escolher uma vida-outra que nunca chega, o leitor sabe da venda da livraria quando o romance encerra, dando lugar a outro prédio destinado ao comércio de coisas numa típica comunidade sul-californiana, que tem um mar quase invisível para quem dele não vive, num simbolismo cujo significado primeiro – insisto na imagem e na metáfora – é o fim da terra e do sonho, como alguém já escreveu, para quem nunca se deixou apanhar pela filosofia de um perpétuo acumular de riqueza.

A vida intelectual em San Pedro parece nula, e as suas pequenas livrarias mantidas por amantes de livros, como Kastinovich, e ainda um amigo seu de nome Moisés, a dois ou três quarteirões de distância. Bukowski é representado aqui com a leveza fleumática com que o imaginamos. Está absolutamente indiferente à fama e à venda ou recepção pública dos seus livros, a viver com uma avença permanente do seu real e histórico editor Black Sparrow Press, bebendo nos bares do seu bairro e a apostar na corrida de cavalos ali bem perto. A sua presença funciona nestas páginas como símbolo vivo não do escritor marginal, mas do homem que tem a noção e a medida certa dos seus próprios valores e ambições.

Numa cena pungente, e para evitar ou adiar a falência da pequena livraria, Bukowski faz uma sessão de autógrafos durante algumas quatro horas, nunca parando de beber a sua cerveja. Kastinovich não tem nada a ver com o seu estilo pessoal, literário, e ainda menos com a temática dramática da sua vida, escrevendo a certa altura um ensaio denunciando Hemingway e Bukowski por terem “corrompido” a literatura moderna americana com o seu individualismo extremado. Isto acontece como um gesto cómico e de desespero por entre os seus livros que ninguém compra, ou sequer folheia.

"Shadowboxing With Bukowski" é esse belo e leve romance sobre a vida dos livros e da mente numa cidade absolutamente indiferente, ou então mesmo hostil, ante a cultura que vá além da comédia humana fabricada ali mesmo ao lado, em Hollywood. Que o autor Darrell Kastin tenha vivido esses dias em tão improvável companhia é-me ainda hoje ponto de inveja. Quando muito mais tarde o vim a conhecer pessoalmente e a escrever sobre os seus livros de temática estritamente açoriana e imigrante, não me cansei de lhe perguntar como era o mítico poeta e autor, hoje tão respeitável que até uma editora multinacional comprou todos os direitos de publicação dos seus livros. Temos aqui uma narrativa que satisfaz qualquer leitor quando interessado no início da carreira de um novo escritor, ou na vida extra-literária de outro autor já consagrado, mas permanecendo distante de todos os cânones tradicionais.

A capa de "Shadowboxing With Bukowski" traz uma estante cheia de livros, com um de Bukowski em destaque. Para o leitor mais curioso, se olhar demoradamente, encontrará um outro, de todo improvável entre os grandes nomes da tradição intelectual ocidental: "A History of the Azores Islands", de James H. Guill, que também tenho na minha estante. A originalidade de Darrell Kastin passa também por aqui, por uma educação literária pouco comum entre nós.

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