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Jeff Mills. Eletrónica e clássica pertencem ao mesmo planeta

Jeff Mills. Eletrónica e clássica pertencem ao mesmo planeta

Davide Pinheiro 21/02/2017 13:12

Um dos produtores fulcrais da história da música de raiz eletrónica edita em março o álbum “Planets”, gravado com a Orquestra Sinfónica do Porto na Casa da Música

Por vezes, a música eletrónica ainda enfrenta algum preconceito quando é subestimada pela aparência “menos verdadeira” da sua génese maquinal mas se há alguém que se tem debatido por derrubar essa visão deformada é Jeff Mills.

“Música é só uma forma de nos expressarmos e é possível fazer isso com samba à terça, techno à quinta e gospel ao domingo. A questão do género não é tão importante como a mensagem da música em si”, defendeu à Lusa a propósito de um álbum que é também um manifesto libertário. A 24 de Março, será imortalizada em disco a gravação de um concerto com a Orquestra Sinfónica do Porto na Casa da Música. “Planets” é metáfora de coexistência, ausência de fronteiras e possibilidades sonoras infinitas. E é só o mais recente gesto de um racionalista preocupado em inventar o futuro.

Se o preconceito enunciado ainda impera junto de alguns circuitos mais conservadores, por outro lado alguns DJ adquiriram estatuto de estrelas rock graças a uma exposição sem precedentes - nem na década de 90 quando a música de dança, habitualmente conotada com o underground, foi absorvida pelo mainstream e celebrada em acontecimentos para milhares de pessoas como as famosas festas Big Beach Boutique de Fatboy Slim.

Jeff Mills atravessa várias planetas mas esse não é um deles. Quando fundou os Underground Resistance com o antigo baixista dos Parliament “Mad” Mike Banks, o coletivo surpreendeu pela postura combativa. Ainda não havia Daft Punk, nem Aphex Twin ou Burial - todos eles símbolos de uma ética maior do que o código genético da música - e já o coletivo se apresentava cobertos por máscaras e fatos de combate com o único fito de chamar a atenção para a música.

À funcionalidade comummente aceite dos grandes circuitos, Jeff Mills sempre respondeu com o risco e a provocação consequentes de uma veia arty desde cedo manifestada. Antigo estudante de Arquitetura, devoto de “2001: Odisseia no Espaço” enquanto expoente de arte total, compôs em 2000 uma nova partitura para “Metropolis”, de Fritz Lang, para se afastar da imagem de “feiticeiro techno” – alimentada pelo primeiro heterónimo The Wizard – e regressar à paixão que alimenta a utopia, o pensamento futurista e busca incessante pelo imaginário fantástico da ficção científica. Um ano depois assinou “Mono”, uma escultura-instalação dedicada ao filme de Stanley Kubrick e exposta no Festival Sónar em Barcelona.

Graças a estes gestos, abriram-se os horizontes de Mills, embaixador e instituição não museológica do techno. A primeira experiência com a música erudita ocorreu com a Orquestra Nacional de Montpellier, em concerto centrado na sinfonia “Hier, Aujourd’hui, Demain”. A editora e o maestro quiseram rever e aumentar a experiência em 2011 e desta vez, uma orquestra completa esteve ao dispor. 16 composições escritas e selecionadas por Jeff Mills foram arranjados para 70 músicos, com Mills em palco à frente da casa das máquinas. Este projeto deu origem a “Light from the Outside World”, apresentado em 2012 com a Orchestre National d’Île-de-France na Salle Pleyel, em Paris, e depois na Casa da Música.

Para Mills, o espaço é a noção mais aproximada do infinito e a infinitude é o que o move. “The Planets” une música eletrónica e clássica; disciplinas como ciência e astrologia; e mundos como o da ficção científica. “A combinação entre clássica e eletrónica está tão proximamente interligada que é difícil para o ouvinte determinar o que é o quê. Fizemos este arranjo para que não seja apenas o encontro de dois géneros, mas antes um corpo de músicos, de música clássica e eletrónica”, explicou à Lusa.

A obsessão pelo futuro vai continuar, promete. Depois do novo disco, para o qual já tem um plano de criar uma nova versão “mais underground, mais direcionada para a dança”, Jeff Mills pretende dedicar-se à criação de música “para gerações de outra era, para o futuro”, revela. “A tecnologia está a ajudar a levar a música a mais sítios de forma mais livre, por isso tenho interesse em criar um projeto que se revele a uma geração que exista daqui a décadas ou mesmo séculos no futuro”.

É frequente atribuir-se ao punk a tutela da subversão, mas haverá coisa mais perigosa do que experimentar?

 

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