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Almeida Faria. "Já tenho uma ideia do que quero fazer no pouco tempo que me resta."

Almeida Faria. "Já tenho uma ideia do que quero fazer no pouco tempo que me resta."

Diogo Vaz Pinto 12/03/2017 12:05

À margem do festival Correntes d’Escritas, focando a objetiva, entrevistámos Almeida Faria, fazendo o balanço de uma vida literária que soube exercer grande influência precisamente por não ter cedido ao jogo da mera transitividade.

 

É difícil confundir Almeida Faria com algum outro escritor seu contemporâneo. Aos 73 anos, a sua obra escapa à vã prolixidade de quem da escrita fez rotina e abafou nas mãos o pássaro. Publicou só o necessário, e resulta perfeitamente com os seus livros o ocioso exercício de ler ao acaso qualquer uma das suas páginas, ficando claro um escrúpulo raro entre nós. As suas frases pensam na mesma medida em que soam, avançam à força de golpes, marchetam o caminho. Versos que dispensam o corte e a vénia. «Poucos dos nossos romancistas contemporâneos jogam com o texto e o imaginário ocidental com tanta destreza e criativa eficácia», notou Eduardo Lourenço. Há inúmeros níveis de consciência nesta obra, com a ironia a desenvolver um singular pacto com o leitor. Cuida antes de tudo para nunca ser maçador, a contenção do seu dom tem a ver também com evitar qualquer sensaboria. Mas assume riscos fenomenais, lembrando ao romance as suas origens fabulosas. Séculos depois, Cervantes tem um verdadeiro discípulo deste lado da península. Aliando a exigência expressiva a uma abordagem lúdica, já se disse que tira gozo de «pôr os mitos nacionais de pernas para o ar». Mas é mais do que isso. Ele retira-os da mortalha, colocando-os de novo em campo, actualizando a grande tradição com o fôlego próprio da sua época. 

O seu é um percurso classicamente romântico, o do rapaz que, no meio do Alentejo, escreve um primeiro livro aos 17 anos e que vem a lançá-lo para o centro da cena literária. Na casa dos seus pais liam-se muitos livros?

Não. Publiquei o livro só aos 19, na sequência de um prémio para inéditos – chamado Prémio de Revelação… Tinha aquilo na gaveta e concorri sem imaginar nada, sem nem sequer saber quem seria o júri. Era então meio iletrado. Vivia já em Lisboa, frequentava a Universidade. Primeiro estudei Direito, depois meti-me na política e dois dos meus professores provaram-me que não tinha futuro ali. “Rumor Branco” estava entre os papéis que eu vinha escrevendo desde os 17, 18 anos. Sabia que queria fazer um romance contra todas as regras do romance. A construção era desarmante, havia duas personagens com o mesmo nome, o livro dividia-se em sete capítulos – como mais tarde “O Conquistador”, que tem também algo de provocatório. Imaginei um esquema dialéctico porque pensava e talvez ainda pense dialecticamente. Nos primeiros três capítulos (primeira parte), o protagonista Daniel João – nome ligado à tradição bíblica: Daniel o profeta, João o Baptista – é um estudante universitário; na segunda  parte assistimos ao nascimento de um rapaz com o mesmo nome mas aparentemente sem nada a ver com o anterior: nasce num bairro da lata em Lisboa, filho de proletários. O último capítulo é um diário escrito na prisão sem que se diga qual o Daniel João que escreve. “Rumor Branco” é enigmático, e isso terá levado às reacções que provocou, à célebre polémica entre o Vergílio Ferreira e o Alexandre Pinheiro Torres, que se alargou a outros, até ao Nuno Bragança… O livro teve a sorte de encontrar um júri que gostou do desafio, e em geral ainda agrada aos leitores jovens, embora me seja já um romance distante. Foi sobretudo uma aventura. Para responder à sua pergunta, não, eu não tinha nenhum background de gente culta. O meu primeiro contacto com a literatura contemporânea foi através do Vergílio Ferreira, meu professor de literatura em Évora. Através dele descobri autores modernos. Eu era um “bom selvagem” nessa época.

Talvez a sua tenha sido verdadeiramente a última grande revelação de um escritor. Hoje, aparecem todos os anos escritores jovens de quem se diz que revelam já muita maturidade, mas é treta, e a comprová-lo está o facto de desaparecerem logo a seguir. O último escritor que foi realmente revelado muito novo e que logo marcou a literatura portuguesa foi o Almeida Faria. Como é que foi para si, aos 19 anos, e num tempo em que a literatura tinha ainda grandes repercussões, tendo gerado aquela que foi a última grande polémica no meio literário português, como foi para si estar no meio daquela tempestade?

Não participei na polémica, não devemos reagir à crítica aos nossos livros, mas surpreendeu-me e deu-me prazer porque me dá gozo provocar.  Mais importantes, e isso eu ignorava, foram os ecos que o livro encontrou no Brasil. Ainda hoje “Rumor Branco” é conhecido pela minha geração e pelas seguintes, porque para os professores de literatura portuguesa no Brasil aquela música soava de modo diferente. A ficção portuguesa no Brasil tinha uma imagem baça, ao nome dos poucos ficcionistas que lá iam – num tempo em que era raro e difícil as pessoas poderem sair do país – os brasileiros associavam uma ficção demasiado convencional, ligada ainda ao neo-realismo.  E isso tinham eles, em melhor: Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rêgo, etc. “Rumor Branco” era outra coisa, marcou bastante os estudantes a quem esse livro era dado, lido, ensinado. E mais ainda o seguinte, “A Paixão”. Ao ponto de Raduan Nassar declarar que “Lavoura Arcaica” nasceu d´”A Paixão”, ao menos em parte. Raduan cita frases d “A Paixão” em “Lavoura Arcaica”. Esses ecos que comecei a receber do Brasil levaram-me a descobrir a literatura brasileira, uma paixão persistente. Leio muita poesia e ficção e ensaio brasileiros, sinto uma relação profunda com autores brasileiros. Nomeadamente com os poetas, João Cabral e Drummond, mais tarde com João Guimarães Rosa. A minha revelação maior foi Guimarães Rosa.

Mas de onde surge “Rumor Branco”, aquela forma de trabalhar a linguagem? Quais foram as leituras que fez?

Poucas. Talvez o pontapé de saída tenha sido a música. Sou bastante melómano, e a música electrónica, nomeadamente a de Stockhausen, sugeriu-me o título, ruído branco é um termo técnico por ele usado, que Don DeLillo usaria mais tarde. Stockhausen pretendia criar sons que fossem a soma de todos os sons como a cor branca é a soma de todas as cores. A ideia de escrever uma obra que fosse a totalidade de várias vozes, até contraditórias, levou-me a “Rumor Branco”, cuja inspiração foi mais musical do que literária. De literatura quase só conhecia as teorias do noveau roman. De dois romancistas cujas ficções conheço mal, li o que tinham escrito de ensaístico. De Nathalie Sarraute, “A Era da Suspeita”, livro de ensaios brilhante e radical. E li ensaios do Robbe-Grillet. A força de ambos está na negação. Robbe-Grillet tem um artigo, depois publicado no volume “Para um Novo Romance”, em que ataca as metáforas antropomórficas: a lua sonha, o sol sorri, a natureza fala a linguagem da euforia. Todas essas metáforas, usadas há milénios para dar à natureza características humanas, são aquilo a que Ricoeur, que li depois, enquanto professor de Filosofia, chama “metáforas mortas”, metáforas que, de tão gastas, já não produzem efeito. E que correspondem a uma ideia romântica da natureza, do Homem como centro da natureza… Talvez a novidade dos meus primeiros livros esteja na recusa de certas convenções literárias. Por exemplo, os diálogos. Quase não uso diálogos. O cinema, a televisão e os novos meios audiovisuais, ao reproduzirem a fala, são muito mais eficazes do que o “disse ela”, “disse eu”, “murmurou ela”, etc. Tudo isso, na ficção, me parece antiquado. Os artistas mais radicais na música ou na pintura deram-me a ideia de que a literatura ficara para trás em relação às vanguardas, e eu queria estar à altura do meu tempo. Muita da ficção que se publicava em Portugal era, quanto a mim, do século dezanove.

Algo que está sempre implícito na sua escrita, embora mais tarde a estrutura narrativa se tenha vindo a impor progressivamente, é uma espécie de tentação da poesia. Às vezes pressente-se nas frases a quebra dos versos. Porque é que se assumiu como romancista e não como poeta?

Porque não escrevo versos.

Não escreve ou não publica?

Escrevi alguns, até publiquei alguns, mas tenho um enorme respeito pela poesia portuguesa. Depois do Pessoa, é difícil imaginar maior poesia. E contudo temos em Portugal, do Pessoa para cá, grandes poetas. Hoje mesmo estão vivos vários grandes poetas. Sempre achei que não consigo fazer melhor do que eles. Por precaução ou defesa, não me arrisco ao verso. Dizem que a minha prosa é mais poética do que narrativa. Antes assim. Escrever versos seria uma responsabilidade e um risco desnecessários. Creio que me expresso melhor e mais autenticamente em prosa.  Se calhar sou mesmo prosaico, nunca arriscaria publicar poemas em versos.

Havia uma cumplicidade na sua relação com Vergílio Ferreira? Foi seu mestre nalgum sentido?

Foi meu professor. Ficou orgulhoso por “Rumor Branco” ter ganho um prémio. Foi ele a oferecer-se para escrever o prefácio, mas só depois de eu ter ganho aquele prémio. Houve boas relações entre nós até certa altura. Já d´ “A Paixão” gostou menos… Disse-me logo: “Isto cheira-me a Agustina”, o que para ele era negativo. Depois as nossas relações tornaram-se mais formais. Lamento que começasse a haver um sentimento de concorrência.

Acha que a literatura portuguesa paga um preço caro na sua expressão no estrangeiro devido a estas invejas?

Como é um país pequeno está mais sujeito a invejas e rivalidades. Nos EUA essas invejas são impensáveis. E no Brasil, por ser tão grande, nunca encontrei um escritor que dissesse mal de outro escritor brasileiro. Talvez a dimensão dos países os defenda da inveja. Essa é também uma das razões que me levam a respeitar os escritores brasileiros, essa recusa de dizerem mal uns dos outros. É como se não conhecessem a inveja. Talvez alguns a sintam, mas não o dizem. Em Portugal há de facto uma tradição, que se calhar já vem das cantigas de escárnio e mal dizer, de uma ferocidade… ridícula, no fundo. Porque a inveja não leva longe. A pequenez geográfica e ética prejudica a imagem dos autores portugueses no exterior.

Parece-lhe que o futuro talvez possa corrigir a posição em que foi colocada Agustina face, nomeadamente a Saramago e Lobo Antunes? Acha que ela pode, como alguns já apontaram, vir a revelar-se a grande figura do romance português no século XX?

Saramago escreveu bons livros, nomeadamente “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. E o Lobo Antunes tem grandes romances, como “Os Cus de Judas”. Mas Agustina surpreende-me mais. A nossa tradição a nível ficcional não é tão forte quanto a nossa tradição lírica. Veja um prosador como Raul Brandão: é um poeta da prosa mas nunca escreveu um romance. Talvez não estivesse interessado.

Por que é que lhe parece que o romance ascendeu ao topo da hierarquia dos géneros literários enquanto o mais comercial e, em consequência, aquele que traz mais prestígio?

Penso que essa noção se impôs porque ler romances parece fácil. Os romancistas sempre venderam mais. O romance é a epopeia da burguesia. Quando acabaram os poemas épicos, surgiu o romance, com o “D. Quixote” à cabeça. Embora o “D. Quixote” seja muito profundo, tem vários níveis de leitura e é possível lê-lo como simples romance de aventuras. Também a poesia tem diversos níveis mas, perante tantos livros de poemas, é difícil distinguir. Uma vez assisti a uma leitura pública do Alexandre O’Neill e houve um ouvinte que o insultou dizendo que aquilo não era poesia. Isto porque o Alexandre escrevia e lia num tom prosaico, hoje banal e que vem do Álvaro de Campos, do modernismo. Mas que ainda não corresponde à ideia popular de lirismo, a ideia de não falar de coisas grosseiras ou prosaicas, de evitar o calão, e assim por diante. O romance faz isso tudo mais à-vontade. É um género inferior à poesia dramática ou lírica, mas mais legível. Toda a gente é capaz de ler romances, mesmo que não perceba tudo. Para ler poesia é preciso gosto e cultura.

Têm sido reeditados os seus livros… Antes, revisitou-os?

Sim, todos. Sou um maníaco da perfeição, não há nenhuma edição de nenhum livro meu que não seja diferente da anterior.

Tem em relação a eles mais uma relação de estranhamento e espanto, ou sente uma certa frieza?

Ainda não consegui fazer aquilo que queria. Este último, “O Conquistador”, no Brasil teve enorme sucesso, teses académicas, dissertações e até livros sobre ele – talvez porque o Brasil tem uma tradição de ironia que nós não temos… Aqui foi recebido de maneira muito reticente. Um crítico até me disse: “Ainda não li mas já sei que é uma merda”. Por este sinto um certo fraquinho. Acho que quase, quase… Enfim, tem os seus defeitos, mas andei perto de conseguir aquilo que queria: misturar erotismo e ironia… Depois tem um capítulo final mais reflexivo e melancólico. Ainda hoje o Ignácio Loyola Brandão [à margem do Festival Correntes D’Escritas] me dizia: “Aquele início, aquela tempestade, aquilo é Melville, é homérico!” Nunca ouvi nenhuma reacção deste tipo em Portugal. Até por isso sou tão grato ao Brasil. Não só pela literatura – a prosa deles é melhor  do que a nossa no século XX, mas pelo amor deles pelos nossos livros. Somos mais estudados no Brasil do que aqui.

Tivemos um período depois da revolução em que figuras como a Sophia de Mello Breyner, o Eugénio de Andrade, até o Carlos de Oliveira, eram como senadores, figuras admiradas e, mesmo que as pessoas não os lessem, tinham um lugar na esfera pública. A Natália Correia foi deputada, a Sophia chegou a intervir no processo constituinte.  Qual a sua leitura da perda de estatuto do escritor de lá para cá?

O que aconteceu depois do 25 de Abril foi uma espécie de compensação em relação ao que acontecia antes. Durante a ditadura, nunca os escritores tiveram esse estatuto. O primeiro quase intocável, e muito justamente, foi a Sophia. Porque a Sophia, além da sua grande poesia – bem merecia o Prémio Nobel –, e de contos de uma claridade cristalina, ela tinha uma pulsão ética de uma grandeza ímpar. A Sophia foi sempre ela mesma, desde os poemas que escreveu na ditadura, como “O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/ A podridão lhe agrada e os seus discursos/ Têm o dom de tornar as almas mais pequenas”… Isto é poesia de combate sem deixar de ser grande poesia. Depois, aquele célebre poema depois do 25 de Abril… [“Esta é a madrugada que eu esperava…”] Escreveu sempre poesia de alto nível. É verdade que o 25 de Abril trouxe uma aceitação maior da figura do escritor. Talvez Mário Soares tenha contribuído para isso porque venerava a literatura e os escritores… Isto parece anedótico, mas numa visita de Estado à União Soviética, no tempo em que o Mário Soares era presidente, os escritores sentavam-se à frente e os banqueiros atrás, coisa que deve tê-los chocado. Soares tinha um respeito pela cultura, e sobretudo pela literatura, nunca antes visto em Portugal.

Mas como é que é possível que um banqueiro se sente à frente de um escritor? Não é uma ofensa à própria ideia de país?

(Risos) Hoje a imagem dos banqueiros piorou. Mas não eram só os banqueiros, iam também industriais, alguns dos homens mais poderosos do país. De facto, eles próprios estavam surpreendidos, o que tem certa graça. Mário Soares fez muito para elevar a imagem do escritor. De Sophia, amiga dele, mas não só… do Cesariny e de outros. Num domingo, estava eu em casa, tocou o telefone: “Daqui é o Mário Soares.” Apesar de ser então presidente da República, não mandou telefonar, telefonou ele mesmo, para dizer “Está aí o Vargas Llosa. Você e a sua mulher querem jantar connosco?”... Vai também o Cesariny”. Mário Soares conseguia juntar esta gente com a maior naturalidade.

Foi jantar?

Claro. (Risos)

E que tal foi?

Falou-se realmente de literatura e de política. Revi o Cesariny, que não encontrava desde o “Rumor Branco”. E ele, com o seu descaramento habitual disse-me logo: “Você está melhor agora do que aos 20 anos.” (Risos)

Porque é que ele dizia isso?

Por razões óbvias. Havia uma libertação total, e  Mário Soares contribuiu muito para esse ambiente de liberdade.

No seu percurso, passou de lado, foi o jovem durante muito tempo…

E agora sou velho.

Não digo isso, mas está aqui a presidir ao júri de um prémio. Qual é a sua leitura ou visão da literatura? Há uma nova geração em sucessão, e que também está a ir para o Brasil… Gostava de saber o que acha desta geração?

Este júri não tem presidente, sou só o mais velho… Aliás, lutei por este prémio [atribuído a Armando Silva Carvalho pelo livro de poemas “A Sombra do Mar”]. Na geração do Armando e nas seguintes há excelentes poetas, e é natural que os mais novos queiram o seu lugar ao sol. Que eu saiba, nunca fui atacado por eles. Também não vejo razão para ser atacado. Gosto de ser júri de poesia porque este prémio é uma maneira de me actualizar. Conheço bem a poesia contemporânea portuguesa.

Houve alguma tentação de dar o prémio ao ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes?

Não, seria suspeito e incómodo para o júri e para ele próprio.

O Correntes D’Escritas foi o primeiro festival, estando a desenhar-se hoje todo um mapa de festivais literários… Parece-lhe que esta é a forma correcta de criar um espaço para afirmação da literatura ou tem algumas reservas em relação a este modelo?

Não, nenhumas. O Brasil tem óptimos festivais literários, e é uma maneira de dar visibilidade à literatura, por um lado, e um meio de provocar encontros entre escritores de várias línguas. Duas, neste caso, português e castelhano. Encontrei aqui hispano-falantes que não conhecia e, por outro lado, esta é uma forma de conseguir a vinda de escritores brasileiros. Vimos hoje o Ignácio Loyola Brandão fazer aquilo em que ele é brilhante… e que o Rubem Fonseca fez aqui há anos. Ouvindo-os, as pessoas riram do princípio ao fim. Por muito bons escritores que eles sejam – e ambos são grandes prosadores –, o facto de o público perceber que a literatura, além de ensinar a olhar e reflectir, pode também fazer rir, isso é muito saudável.

E em relação à provocação, à polémica e ao combate – combate no sentido literário: a crítica, que neste momento parece estar praticamente desarmada… Para o bem e para o mal – para o bem, porque ninguém os põe em causa, não há nenhum teste, para o mal porque também  não se fala muito de escritores –, não sente que houve uma desertificação do espaço da literatura enquanto discurso pensante, avaliador?

Pois, há muito menos crítica do que há 50 anos. Antes do 25 de Abril, a crítica literária tinha grande peso nos jornais. Hoje são poucos os jornais que ainda publicam crítica. Haverá mais crítica universitária, mas essa não atinge uma audiência significativa. Tanto quanto sei, não falta polémica entre os poetas. Há ódios de estimação, grupos ligados a revistas ou editoras que não querem nada com outros grupos… Ignoro se há debate de ideias, há é defesa de baluartes estéticos, estratégias quase bélicas. Há editoras que recusam enviar livros para estes prémios, o que prejudica os poetas por elas publicados. São opções difíceis de explicar e que, julgo, resultam da pequenez do país.

Continua a ler e a escrever empenhadamente, e, por isso, gostava de saber se tem alguma besta pelo rabo? Há algum escritor ou alguma coisa em que está investido e que tem explorado, sentindo como muito instigante?

Não. Até pela minha idade, passo mais tempo a reler. Mas ao nível da prosa, lerei até ao fim da vida, sem me cansar, João Guimarães Rosa. Ao nível da poesia, leio e releio jovens e velhos poetas. No Brasil há muito bons poetas neste momento. Portanto, não ando à procura de modelos, tenho uma ideia daquilo que quero fazer no pouco tempo que me resta. Procuro ler quem me dá prazer,  e a poesia continua a ser o que me dá mais prazer. Para além de Guimarães Rosa, poeta da prosa.

Qual o motivo de tão grande fascínio pelo Guimarães Rosa?

É a reinvenção constante da linguagem, a capacidade imagética de transfigurar, de não ser só jogo de palavras. E isso além da sua dimensão transcendente. “Grande Sertão: Veredas” é um livro inesgotável, fala de muito mais que lutas sertanejas, é uma demanda, como na Idade Média, demanda de um Graal de encontro com o Outro (Diadorim) que afinal era Outra, de busca de uma sabedoria capaz de vencer a vingança justiceira, de heróis à procura de si mesmos. São muitas as semelhanças com a demanda do Graal, com os cavaleiros da Távola Redonda, sem a mística da fé, numa dimensão moderna. A grande literatura tem de ser mais que simples relato ou documento, tem de ultrapassar a descrição de cenas, tem de enfrentar um mistério qualquer, atingir uma dimensão de transcendência.

Quando o Raduan Nassar recebeu o Prémio Camões, na célebre cerimónia em que se bateu de frente com o governo de Temer, houve algum aspecto que o inquietou?

Não, pelo contrário, alegrou-me profundamente. Acho que é mesmo isso que o escritor deve fazer, aproveitar todas as oportunidades que tiver – e não são muitas – para manifestar o seu protesto cívico. Não recebi muitos prémios, mas uma vez atribuíram-me um da Fundação Casa de Mateus… Na altura não havia ministro da Cultura, só secretário de Estado, e, não sei porquê, deram-me a palavra primeiro a mim, depois o secretário de Estado, que aliás era inteligente, queixou-se em tom irónico: “Mas porque é que eu não falei antes? Agora tenho de responder àquilo que você disse”. O Raduan foi hábil. Também estava previsto que ele falasse depois, mas saltou para o pódio e falou antes. Deixou o ministro da Cultura desarmado. Isso foi uma jogada de grande inteligência, de resto ele é muito inteligente.

Tem falado com ele?

Sim, claro. E este ano vou outra vez ao Brasil e espero estar com ele. É um dos homens mais admiráveis… e tem isso em comum com a Sophia. Não é só o que ele escreve, é a exigência ética que o leva a não pactuar e também a não se calar em situações importantes.

Alguma vez tiveram um conversa interessante sobre a decisão dele de virar as costas à literatura?

Durante muito tempo não acreditei que ele tivesse deixado de escrever. Agora creio que deixou mesmo. E creio que lamenta.

Agora arrependeu-se?

Não sei se se arrependeu. Creio que lamenta. Diz que teve boas ideias e perdeu a ocasião e agora é tarde… Há dois anos estive com ele na fazenda e não havia um livro na casa. Tinha uma biblioteca noutro edifício, com livros que antes leu ou que lhe foram oferecendo, mas não lia durante todo o dia. Estávamos sozinhos, vinha uma empregada à hora das refeições. Aí fiquei convencido de que abandonou mesmo a literatura. Na casa de São Paulo tem os clássicos brasileiros. Na falzenda, nada. Nunca tinha visto um escritor sem um livro à cabeceira.

Alguma coisa ele deve ter sentido como um perigo para ter tomado uma decisão tão peremptória.

É inexplicável. Penso que na altura julgou que não podia fazer melhor e parou. Depois entregou-se à agricultura, à criação de galinhas, tinha uma fazenda fantástica, valiosíssima. Acabou por oferecê-la à Universidade. Doada! Ficou com problemas financeiros… Felizmente recebeu este prémio, porque antes disso poucos rendimentos tinha. Agora os livros recomeçaram a vender-se, a serem traduzidos e editados lá fora. Isso, além dos 100 mil do prémio, espero que lhe resolva os problemas de liquidez.

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