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Carlos Carreiras 15/03/2017
Carlos Carreiras

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Governo das esquerdas:15 meses de fumaça

Temos uma esquerda aburguesada, reacionária e conservadora a gozar os rendimentos presentes e a marimbar-se para o futuro dos portugueses. 

Há uns dias, entre um tweet em que ridicularizava Schwarzenegger e outro em que comentava as variedades, Donald Trump disparou um tweet acusando Barack Obama de ter ordenado escutas à sua campanha.O campo trumpiano entrou em erupção, reclamando um novo Watergate. Se o caso já era estapafúrdio, esta semana, uma das principais conselheiras do presidente cometeu a proeza de o tornar patético, admitindo que as escutas podem ser feitas “até com micro--ondas”. Tentando pôr um travão na alucinação, o porta-voz da Casa Branca corrigiu Trump, admitindo que a referência a escutas significaria vigilância em sentido lato. Este caso é bem revelador de um método comunicacional da Casa Branca: lançam-se umas bombas para o espaço público, como as escutas, põe-se o país a discutir o que não existe e os pós-factos; cria-se a dúvida na opinião pública. E, no fim do dia, mascara-se a ausência de avanços na governação com casos e casinhos.

As escutas do micro-ondas estão para a América como as offshores estão cá para o burgo. Começou por ser um grande escândalo de fuga aos impostos e está resumido à atividade profissional do ex--secretário de Estado. 
Com 15 meses de governação das esquerdas, encontramos o mesmo método de criação e gestão de dúvidas e distrações em muitos outros processos, com a CGD à cabeça. A estratégia da fumaça também passa pela descredibilização dos protagonistas que disputem a “verdade governamental”. A oposição, claro, mas também as lideranças das entidades de regulação e supervisão.

Todas estas cortinas de fumo não são criadas por acaso: elas distraem os portugueses do essencial.
E o essencial é que Portugal está à deriva. Não tem uma estratégia, um caminho ou um vislumbre vago do que possa ser o futuro.

Com o governo de Pedro Passos Coelho, o país estava mobilizado na recuperação da soberania financeira e na ultrapassagem da bancarrota socialista.

Com o governo de António Costa, o país não sabe para onde vai. Não sabe e não podia saber, porque quem nos governa também vive confortavelmente na ignorância. Alguém sabe onde é que Costa vê o país em 2020? Alguém consegue apontar uma reforma, uma única, que nos guie num sentido de maior competitividade, prosperidade e justiça social? Alguém sabe como Costa e o seu governo querem ultrapassar os bloqueios estruturais do país, para que Portugal cresça o dobro do que conseguiu o ano passado e traga o emprego para os 5%? Alguém é capaz de dar uma mão de indicadores em que estejamos, sustentadamente, melhor do que em 2015? 
As respostas a estas questões são desoladoras.

O governo das esquerdas é uma gigantesca oportunidade perdida para o país.
António Costa lidera o primeiro governo apoiado por uma maioria de esquerda pluripartidária.
A formação da coligação foi, na avaliação dos intervenientes, um momento histórico. A verdade é que, se foi isso, não foi nada mais do que isso.

A maioria das esquerdas tinha a responsabilidade histórica de transformar esse momento na mola reformadora do país, avançando com a sua agenda económica e a realização da sua utopia social. Como milhões de eleitores – uma posição vencedora em eleições –, eu discordaria desse rumo. Mas ele seria legítimo para um governo saído de um novo arranjo parlamentar.

Quinze meses passados, a novidade em Portugal é a reposição das mesmas políticas que nos levaram à situação de 2011.Um governo novo que se limitou a aplicar políticas velhas. Onde está a audácia da esquerda? Onde está o vigor e a coragem de fazer o que nunca foi feito?

Temos uma esquerda aburguesada, reacionária e conservadora a gozar os rendimentos presentes e a marimbar-se para o futuro dos portugueses. Enquanto se forem governando a eles mesmos, não vale a pena criar chatices governando o país – afinal de contas, a paz social está garantida. 

Peço desculpa se sou exigente e não me contento com o “poucochinho”. Eu quero um governo que, em vez de estoirar foguetes por ver a economia crescer 1,4%, se constranja por ver o país cada vez mais distante da Europa. Eu exijo um governo que, em vez de viver inebriado com a sua própria existência, defenda o SNS (nunca houve tantos médicos a querer sair do país), se bata pela escola pública de qualidade (já viram bem como estão as transferências para as universidades?) e promova uma justiça democrática e célere para todos (qual é o balanço da reabertura dos tribunais, alguém sabe?). Eu quero um governo capaz e audaz. Capaz de atrair investimento estrangeiro (quantas novas empresas vão abrir portas em Portugal?), capaz de cumprir os compromissos financeiros sem artimanhas (já olharam mesmo bem para as contas do défice?), capaz de falar verdade aos cidadãos. E audaz na colocação de Portugal no pelotão da frente da Europa.

Este governo não é nada disto. É a coligação do vai-se andando. António Costa não faz nem deixa fazer, não anda nem deixa andar. Três minorias não formam uma maioria. Passos Coelho fazia-se ao mar turbulento se dele viesse o sustento. Costa não tem coragem de abandonar o mar calmo, à espera que a maré lhe traga o peixe.

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