24/3/17
 
 
Mário João Fernandes 17/03/2017
Mário João Fernandes

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Netherlands first!

As eleições holandesas traduziram-se num psicodrama que espicaçou a curiosidade sobre o que acontecerá em França, Alemanha e Itália

As eleições holandesas traduziram-se num psicodrama que espicaçou a curiosidade sobre o que acontecerá em França, Alemanha e Itália.

Nada como assistir à vitória dos eleitores sobre as sondagens para nos reconciliarmos com a democracia. Em anos recentes as sondagens tinham-se transformado numa primeira volta sem eleitores, num simulacro de eleições primárias destinadas a escolher um candidato a vencedor que depois seria validado no dia das eleições.

Fenómenos recentes de mobilização do eleitorado contra a ditadura das sondagens (Brexit, Trump,...) devolveram a emoção ao acto eleitoral. O que aconteceu anteontem na Holanda dificulta sobremaneira a vida dos especialistas em demoscopia. Sem pré-aviso, assistimos a uma participação muito elevada dos eleitores, com a mais baixa taxa de abstenção dos últimos 31 anos.

E este fenómeno dificulta a vida aos partidos que têm um eleitorado fiel mas estabilizado, que mantêm o número de votos mas cujos resultados se diluem quando a abstenção diminui. Em Portugal o PCP, com um eleitorado muito fiel, é um tradicional beneficiário da crescente abstenção.

Mas se os radicais xenófobos e anti-europeus não ganharam as eleições na Holanda e tiveram um resultado muito abaixo do previsto nas sondagens tal não se deve apenas ao “sobressalto democrático” e ao voto daqueles que normalmente optariam pela abstenção. Independentemente dos resultados eleitorais e da vitória dos partidos tradicionais há um antes e um depois da campanha eleitoral das últimas semanas.

O discurso “a Holanda para os holandeses” e a defesa do respeito pela identidade e cultura holandesas em detrimento do multiculturalismo é um adquirido da vida política holandesa. Apesar de ter perdido deputados, o partido do Primeiro Ministro Mark Rutte ganhou as eleições porque fez sua grande parte do discurso de Wilders. E porque beneficiou de uma ajuda inesperada do Presidente Erdogan que, com um comportamento primário destinado ao mercado político interno, baseado na vitimização dos turcos às mãos dos europeus, deu o pretexto para o reafirmar da soberania holandesa. Wilders perdeu as eleições mas ganhou a “Kulturkampf”.

E tem de dar um bónus ao spin doctor que o pôs a dizer na noite das eleições: “Nada será como dantes. Não é possível voltar a colocar o génio dentro da lâmpada”. E posso garantir-lhe, caro leitor, que Wilders continuará afanosamente a esfregar a lâmpada...

Por Bruxelas, Berlim, Paris e Roma ouviram-se suspiros de alívio e multiplicaram-se as declarações de hosana nas alturas ao génio democrático holandês. Recomendo alguma contenção. Não prevejo mais nenhuma campanha de Erdogan contra um Governo em funções, antes prevejo, com a chegada da Primavera, um reabrir das fronteiras turcas às vagas de emigrantes como forma de forçar uma negociação com a União Europeia, com a abolição dos vistos para os cidadãos turcos à cabeça da lista de reivindicações.

Nada disto ajudará os partidos tradicionais na Alemanha e na França. E em França o sistema eleitoral maioritário a duas voltas voltará a condenar o Front National à inexistência parlamentar. Não é boa ideia manter mais de um terço do eleitorado fora das instituições representativas. Os que não entram pela porta sentem-se muitas vezes tentados a entrar pela janela.

Para Portugal a consequência mais imediata dos resultados das eleições holandesas, com a quase desaparição do partido socialista local, será a substituição do presidente do Eurogrupo. Mas conhecendo a duração habitual da negociação de uma coligação na Holanda (cinco a sete meses) Dijsselbloem continuará até lá como Ministro das Finanças e, por consequência, como presidente do Eurogrupo.

 

Escreve à sexta-feira

 

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