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Marta F. Reis 17/03/2017
Marta F. Reis
Sociedade

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Voltar à Rua da Liberdade

Surto de legionela em Vila Franca foi declarado controlado no mesmo dia em que Sócrates foi detido no aeroporto de Lisboa. Acusação foi conhecida esta semana. É contar pelos dedos...

Margarida teve de puxar o comando para a frente e para trás para ouvir a notícia. “Fala-se de tanta coisa, aquilo deu só um bocadinho.” Entre as atualizações ao minuto das eleições na Holanda (onde estava sol e as pessoas decidiram ir votar, os boletins tinham meio metro, concorreram 28 partidos, só há governos de coligação e, ao cair da noite, multiplicaram-se tweets de regozijo por Wilders não ter ganhado) e o vai e não vai da Operação Marquês, na quarta-feira foi conhecido o desfecho do inquérito do Ministério Público ao surto de legionela que em novembro de 2014 assolou Vila Franca de Xira e levou 400 pessoas ao hospital. Já foi há algum tempo, por isso importa lembrar que 14 não voltaram para casa.

Margarida, diretora técnica da Farmácia Romeiras, no epicentro do surto, na Rua da Liberdade, em Forte da Casa, depois de usar a box para recuar no tempo, lá conseguiu ouvir o que tiveram esta semana a dizer os jornalistas que há dois anos, em novembro de 2014, invadiram a terra. A desproporção do tempo de antena da notícia da acusação, se lembrarmos a azáfama daquela época, é notória. Na altura, também corri a Forte da Casa. Nunca lá tinha ido nem lá tornei a ir. Tocámos campainhas, procurámos doentes, fizemos o trinta por uma linha habitual para contar a história.

Agora foi deduzida uma acusação. Parte do inquérito foi arquivado. Na parte que não foi, o MP reuniu provas dos crimes de infração de regras de construção (conservação) e ofensas à integridade física por negligência, mas ficou de fora o crime de poluição ambiental que, na altura, o ministro do Ambiente Jorge Moreira da Silva chegou a dar quase como evidente. “Estou convicto que a culpa não morrerá solteira neste crime ambiental”, disse já em setembro do ano passado o ex-governante, numa altura em que os resultados da investigação tardavam.

Não só não há acusação pelo crime ambiental como o nexo de causalidade entre as torres da Adubos de Portugal e os doentes só foi apurado para 79 vítimas, entre as quais oito pessoas que morreram.

O significado disto só se perceberá daqui para a frente, quando começar o julgamento e as restantes vítimas decidirem ou não recorrer também à justiça. Mas o certo é que até os quatro casos de legionela confirmados nos últimos dias na Maia, não lhes retirando a gravidade, tiveram mais repercussão mediática do que isto. O mediatismo da Holanda ou da Operação Marquês até se dá de barato mas, até quando o assunto é a mesma legionela, a máquina trituradora do presente e do imediato parece conspirar para nos varrer a memória. Até ver, o surto de 2014 que agora chegará à barra dos tribunais afetou 100 vezes mais pessoas do que o que está em curso no Norte.

Se é a discussão jurídico-filosófica sobre se “o da Joana” reina ou não na justiça que interessa ter, esta história da legionela também tem o ingrediente-chave da excecional complexidade. Até há pontos em comum, porque a vida é feita destas ironias que nos chamam à terra. O surto de legionela no concelho de Vila Franca foi declarado controlado no dia 21 de novembro de 2014, a mesma sexta-feira em que Sócrates foi detido com aparato no aeroporto de Lisboa.

A investigação durou 27 meses, 850 dias se nos dermos ao trabalho de contar pelos dedos, como os advogados de Sócrates fizeram no último tempo de antena sobre a Operação Marquês. É muito ou pouco? Os inquéritos na comarca de Lisboa costumam durar, em média, três meses e três dias, revelam os últimos dados do MP. Inquéritos de maior complexidade duram em média dois anos. Este, a ver, foi mais longo que a maioria.

Se na Operação Marquês a vítima será o Estado, e a justiça popular bem se tem indignado, no surto de legionela, as vítimas seguiram as suas vidas como puderam, lembradas pontualmente. Talvez menos do que deviam ter sido, por culpa também nossa. Na Farmácia Romeiras encontrei há dois anos Aníbal, 68 anos. Percebeu que algo estava errado quando, naquela manhã de novembro, a colherada de mel que tomava religiosamente para afastar as constipações não funcionou. Esteve oito dias internado e safou--se, mas ficou com sequelas. Continua a passar pela farmácia, contou-me ontem Margarida, que tem um amigo da sua idade, ainda nem 40 anos, que também esteve às portas da morte com a legionela. A memória é a consciência inserida no tempo, escreveu Fernando Pessoa.

 

Jornalista

Escreve à sexta

 

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