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Natália Correia e o Verbo Insubmisso

Natália Correia e o Verbo Insubmisso

Teresa Carvalho 17/03/2017 14:13

Assídua do templo e do botequim, Natália Correia (13 de Setembro de 1923 – 16 de Março de 1993) exorcizou a cruz do cristianismo e celebrou o feminino. Propiciou amores, alguns deles célebres, como os de Francisco Sá Carneiro e Snu Abcassis. Protegeu amantes, defendeu o consórcio amoroso entre Portugal e Espanha (Somos Todos Hispanos, 1988) e casou astros, na inversão das roseiras. Cria no assombroso, na incrível energia do amor.

«Por vezes fêmea. Por vezes monja/ Conforme a noite. Conforme o dia». Assim se auto-retratou numa reuniãde contrários esta poeta (como preferia), figura marcante da literatura e da vida cultural portuguesas da segunda metade do século XX. Nasceu em Ponta Delgada, na Ilha de S. Miguel, de que se separou aos 11 anos para se fixar com a mãe em Lisboa, cidade onde frequentou os caminhos militantes da liberdade. Disse-se «aluna das ervas», mas, avessa às coisas rasteiras, investiu nos píncaros inatingíveis do transcendente.

Situada entre o riso e a lágrima, o prosaico e o sagrado, quem a desejar (quase) completa, procure-a n’O Sol nas Nuvens e o Luar nos Dias, o título que reúne a obra poética de Natália Correia, que fez a sua estreia literária em 1945 com A Grande Aventura de um Pequeno Herói (infanto-juvenil), logo seguida de Rio de Nuvens (poesia, 1946) e Anoiteceu no Bairro (ficção, 1947).

A sedução do múltiplo é nesta voz a um tempo lírica e satírica uma realidade para que apontam: os géneros que praticou – poesia, romance, conto, teatro, crónica de viagem, diário, ensaio; os estilos que adoptou – o barroco, o romantismo, o surrealismo; as formas de expressão poética que convocou – da redondilha à cantiga de risadinha (inspirada na vida parlamentar), da ode ao soneto; as ficções em que se projectou – da «Feiticeira Cotovia» à «Sibila/ Com bico de rouxinol» de Comunicação (1959), da Cynthia de O Vinho e a Lira (1966) à Paloma do romance homónimo em A Mosca Iluminada (1972).

As funções que exerceu são também um claro sinal dessa multiplicidade: editora, directora de revistas (Século-Hoje e Vida Mundial), jornalista, consultora para os Assuntos Culturais Internos da Secretaria de Estado da Cultura (1977), tutelada por David Mourão-Ferreira, deputada à Assembleia da República, cargo que lhe permitiu intervir politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e em particular da mulher, mas também atingir a virilidade do «deputado Morgado», celebrizado num soneto satírico.

Misto de menina insular e mulher fatal, de cultura vasta e pensamento ousado, exasperava-a a lógica do senso comum, essa «ciência de gerir os rendimentos da estupidez», que desassombrada e altivamente subverte nos seus ensaios mas também nas intervenções sociais e políticas em que se desdobrava, com acutilância e o sentido raro do improviso e da sátira que a tornaram célebre. «Os intelectuais – observou – são uma chatice com que o Criador não contava».

Rebelde às injunções dos homens ou às convenções sociais, foi a voz feminina que ousou anunciar que era chegada «a hora romântica dos deuses nos pedirem a desobediência». Ao pedido dos deuses – todos ou nenhum, que herdou o frémito pagão da celebração panteísta do Universo – acederia prontamente a organizadora da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (1966), apreendida e julgada em Tribunal Plenário como «ofensiva do pudor geral, da decência e da moralidade pública e dos bons costumes».

O acto de rebeldia, nela congénito, custou-lhe três anos de pena suspensa. Houve outras penas não menos pesadas: a perseguição pela edição de Novas Cartas Portuguesas (1973), o silenciamento cénico (e editorial) de que foi vítima durante os anos do salazarismo (e não só) o seu trabalho dramatúrgico, com uma impressionante diversidade de registos.

Refira-se a sua primeira peça, Sucubina ou a Teoria do Chapéu, um divertimento surrealizante escrito em 1952 com Manuel de Lima, a feroz sátira política O Homúnculo (1964) ou A Pécora (1967), todas elas escritas para o eco morto da gaveta ou, na melhor das hipóteses, para a cumplicidade conspiratória da leitura partilhada nesse espaço de tertúlia cultural e resistência política ao salazarismo em que se constitui a sua casa de Lisboa nas décadas de ’50 e ’60.

Na série televisiva Matria, da RTP, onde fez desfilar modelos de origem matriarcal, Natália Correia não deixou de fazer passar a sua mensagem: «Ó subalimentados do sonho!/  A poesia é para comer!».

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