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António Pedro Lopes. “Já não há tremores de terra nem catástrofes naturais nos Açores”

António Pedro Lopes. “Já não há tremores de terra nem catástrofes naturais nos Açores”

João Girão Cláudia Sobral 03/04/2017 19:38

A ilha de São Miguel volta a tremer por cinco dias para mais uma edição do Tremor. E antes de nos fazermos a ele, conversámos com um dos fundadores. 

Tremor pode ser o que se quiser, provaram António Pedro Lopes e a Yuzin e a Lovers & Lollypops quando em 2014 arrancaram para a primeira edição de um festival de música de 34 horas em Ponta Delgada, naquele “arquipélago ali no meio do oceano” onde só há “grandes chuvas e grandes tremores de terra”. Era o que nos diziam as notícias para ao fim de quatro edições de Tremor dizerem outra coisa. Porque pode até ter havido um tremor de terra dos grandes em véspera de primeira edição, mas Tremor passou a ser outra coisa, passou a ser o festival que leva o Continente à ilha já a partir de amanhã num abalo que só há de terminar sábado à noite. Antes disso foi tempo de encontrar António Pedro Lopes em Lisboa, cidade que todos os anos passou a trocar por regressos temporários à ilha, São Miguel. Conversa com início ao som de Kate Bush a servir aquilo que tem para dizer sobre o que é ou deve ser a música. Fenómeno cultural, poço sem fundo para a esperança de que entrando ele vá dar ao Atlântico.

Ponta Delgada e São Miguel mudaram muito nos últimos quatro anos. É diferente programar o Tremor hoje do que era no início?

É, claro que é. O espaço mudou, a relação dos locais com a cidade mudou e passou-se de uma cidade deserta, às vezes à beira do fantasma a meio da tarde, para uma cidade pelo menos com a ilusão de estar viva. Há pessoas a circular nas ruas, semanalmente chegam paquetes gigantes que enchem a cidade com 5 mil pessoas e há um fenómeno de invasão da cidade que é direto. 

E o festival mudou à medida que foi mudando a ilha?

Em 2014 o Tremor era um festival de música portuguesa de 34 horas, tinha uma caraterística de simultaneidade e de criar um roteiro cultural na cidade, em várias salas e vários espaços. Quatro anos depois é um festival de cinco dias com uma programação internacional. Entendemos que era mesmo importante levar a música açoriana pelas mãos, trabalhando com a comunidade artística local e estimulando a criação de situações que lhes deem visibilidade e que lhes permitam colaborar com outros artistas, para que ali haja sobretudo uma possibilidade de futuro, porque não há. Para quem é artista não há uma perspetiva. Há um circuito com meia dúzia de bares que se esgotam muito rapidamente. Quatro anos depois isso tornou-se uma coisa super importante na programação. Pensar que o festival dura uma semana e depois como que deixa traço, como é que cria novas janelas para se ir criando um caminho ao longo do ano.

E que frutos é que isso começa a dar?

Todos os anos há novas bandas, as casas e bares que tinham projetos de covers começam a ter artistas a tocar originais, há realmente uma explosão. Há duas bandas que tocam a sua primeira vez connosco, os Silicon Seeds e os The Quiet Bottom. Como estamos sempre a olhar porque ganhámos essa sensibilidade específica, parte desta missão, temos uma atenção muito especial a entender o que se passa e há mesmo um sentido de emergência. Não há uma cena como por exemplo em Leiria, onde há muitas bandas ligadas ao rock, há uma grande diversidade e nós prezamos esse ecletismo, essa diferença. Isso gera uma zona de cruzamento que fala a públicos diferentes e em quatro anos mudou tudo. Começámos a trabalhar quase numa perspetiva de investigação da ilha, de que tipo de conteúdo podemos gerar para determinados lugares deslocando a ideia de fruição de um concerto, repensando a ideia de palco e de como ouvimos música, como é que a natureza entra num concerto e deixa de ser uma mera paisagem linda e hipnótica e, cada vez mais, como é que a comunidade, não só a artística, pode colaborar. A cidade que está a acordar e a reconstruir-se atrás das duas paredes, jáhá um fenómeno de gentrificação do centro histórico da cidade. 

Em conjunto com o Walk&Talk, um festival de artes que decorre todos os anos nas últimas duas semanas de julho, o Tremor ajuda a criaruma espécie de calendário cultural em São Miguel.

Tanto que todos os anos colaboramos de alguma maneira. Há um calendário que se faz, que começa connosco nesta época da chuva e que depois se vai esticando até ao verão e há uns Açores que se vão revelando ao longo do ano através dessas experiências. Este ano por exemplo temos a Pauliana Valente Pimentel numa colaboração com o Walk&Talk e a Galeria Fonseca Macedo, que tem um interesse por identidades um bocado deslocadas, transgressoras, não normativas, e vem trabalhar sobre a juventude micaelense. E na semana do Tremor vai estar a acontecer o Invisible Places, uma conferência internaiconal de som organizada pela Raquel Castro. É a segunda edição, a primeira aconteceu nos Jardins Efémeros, em Viseu,o Arquipélago [centro de artes contemporâneas, na Ribeira Grande] está cada vez mais vivo e começa a ter uma programação mais regular. É um momento particular, alguma coisa mudou. Antes não tinhas escolha nenhuma, agora tens escolhas e tens lugares com visões curatoriais, que fazem escolhas, como o Arco 8 ou o Raiz Bar. Não quer dizer que tenhamos sido responsáveis mas contribuímos para isso de certeza.

Foi para isso que decidiste voltar aos Açores, onde cresceste, depois de tantos anos?

O Tremor foi para mim um comeback. Já não tinha ligação, só ligações pontuais através dos meus trabalhos nas artes performativas. Fiz um espetáculo no Teatro Micaelense, tive um projeto no Walk&Talk ligado a dez habitantes locais que criavam experiências para mostrar e ligar Ponta Delgada, em colaboração com o Gustavo Ciríaco, que foi uma forma de recriar um laço com Ponta Delgada e São Miguel. E foi através do Jesse James [fundador e diretor artístico do Walk&Talk], que foi diretor editorial da agenda cultural Yuzin [que coorganiza o Tremor],  que conheci o Luís Banrezes, diretor da Yuzin, que um dia numa conversa sobre Ponta Delgada, sobre uma sensação de degredo, de deserto, de não se passa nada, de faltar alguma coisa, disse: “Mas há tantos prédios abandonados aqui, isto não pode continuar assim, e se fizéssemos um festival que ocupasse os prédios abandonados?” Pensámos em chamar-lhe okupa mas okupa? Não. 

Tremor veio de onde?

Começámos a pensar no que é que era daqui que causasse efetivamente uma sensação de vibração e chegámos a Tremor. Não é um tremor de terra, é o arrepio, uma vibração. Fomos super criticados porque passava uma ideia negativa dos Açores, aquele arquipélago ali no meio do oceano que tem só grandes chuvas e grandes tremores de terra, mas aconteceram duas coisas incríveis para inverter essa sensação, além de o festival ter esgotado e ter corrido muito bem. A primeira foi que na véspera houve um tremor de terra de 5.0 e a outra é que quando vais ao Google e escreves “tremor” aparece só o festival, já não há tremores de terra nem catástrofes naturais [risos], portanto ganhámos. Isto foi um tropeção de um encontro que depois se alastrou à Lovers & Lollypops.

Porquê a Lovers & Lollypops? Por todo o trabalho que eles fazem de descoberta? Vinha já em linha com o que queriam para o festival?

Eles são agentes, promotores, diretores artísticos, criadores de comunidade também com tudo o que fizeram em Barcelos [onde todos os anos se realiza o Milhões de Festa]. Era muito inspiradora para nós a forma como eles trabalham. Para nós a música é uma cultura, não é uma música fixe ou uma celebridade. É o que cada artista carrega com um discurso, o que cada artista fala sobre a nossa época, aquilo com que cada artista contribui para uma experiência mega complexa, atravessada de informação e múltipla. Ou seja, nada no Tremor é absoluto. Ele só propõe escolhas e muitas visões do mundo, portanto a nossa associação à Lovers & Lollypops faria todo o sentido, até porque da nossa parte começou por haver uma ideia e da parte deles havia todo um know how e toda uma experiência de implementação dos vários projetos que vão tendo. 

A propósito desse ecletismo de que falas, a música interessa-te por géneros ou não fazes essa divisão?

Boa pergunta. Ouço tudo. Cresci a ouvir cantores compositores, aquela guitarra-voz, aquele piano-voz de um universo que se constrói à volta de uma pessoa. Muitos heartbreaks, muitas perdas, muitos espaço de solidão de um para o mundo... Mas a música é uma peça de cultura que me ajuda a ler o mundo e como tal sou muito atento aos fenómenos do presente e cada vez torno mais presentes os fenómenos do passado no sentido em que é um poço sem fundo. Por exemplo estava a ouvir Kate Bush esta manhã, estou fixado em Kate Bush. 

Porquê?

É talvez a tipologia de uma artista sem limites que criou todo um corpo de trabalho, pensa num universo lírico, uma encenação de si, que construiu um teatro, uma mitologia própria e que criou formas muito sui generis de pensar e de  storytelling através das canções dela, ao mesmo tempo que manteve sempre uma reserva em relação ao mundo. A música e a forma como ela se apresenta tornaram-se um veículo essencial para ela comunicar e isso é de um power do caraças. A Beyoncé está a fazer isso do “faço o que eu quero e lanço quando eu quero e como eu quero”, noutro registo. A Kate Bush é uma artista maior que vês que influenciou muitas cantoras e compositoras deste mundo, estejam elas em caminhos mais ou menos eletrónicos, mais ou menos exploratórios da voz. Isto para dizer que me interessa a música como fenómeno cultural. 

É também essa a lógica que segue a programação do Tremor.

Como trabalhamos entre três escalas que são a regional, a nacional e a internacional, o Tremor não é sobre o nosso gosto musical mas sobre o que cada artista propõe e que contributo é que isso pode ter para aquele programa. De muitos dos artistas aprendo a gostar porque entendo o papel que eles têm ali. Acho isso muito importante como ideia. Não é sobre o que eu gosto, é sobre o que é necessário para criar um avanço num histórico. De ano para ano, olhamos sempre para o festival anterior para construir o próximo, tanto que o Fred Cabral e o Swif Triigga [os MC que são embaixadores desta edição e que fizerama Tremor Tour] foram os artistas que no ano passado abriram um espaço novo no festival, que nos deram a ver uma coisa nova.

A cena do hip hop açoriano que existia na internet mas não tinha espaço na programação cultural.

Exatamente. E há um outro fator que é estarmos a meio caminho entre a Europa e a América, uma posição que te faz olhar de uma determinada maneira para os dois lados, pensares como é que juntas as duas realidades, como é que os Açores podem ser uma zona de confluência e de diálogo.

Apesar de tudo o que dizias que esteve na génese do Tremor, ele é também um festival muito aberto para fora.

Sim, ao mesmo tempo que é aberto para dentro ao propor uma nova forma de ver e de habitar o lugar para quem é de lá. Um dos comentários mais bonitos é sempre “como é que eu nunca tinha estado aqui dentro?” És capaz de viver 30 anos em São Miguel e não saberes que tens um auditório que parece um barco que é uma réplica do Barbican, em Londres.

Que auditório?

O Auditório Luís de Camões.

O salto para os nomes internacionais veio dessa localização tão específica?

Acho que veio daí, sim. Começámos a aproximar-nos muito rapidamente dos Estados Unidos, mesmo do ponto de vista institucional, e a pensar como é que podíamos ir criando programas com um foco, que pusessem a luz sobre uma questão específica e depois isso foi-se alargando e fomos percebendo que podíamos ser tentaculares e ir ali à Europa buscar algo. Ou como é que, uma vez que começámos com esta relação de foco com os Estados Unidos, podemos atualizá-la? Este ano, por exemplo, começámos a questionar-nos sobre onde estão as mulheres neste cartaz. Porque são só homens, o cliché do indie rock que é tipo 50 homens para duas mulheres. Há aqui qualquer coisa que não está bem. Sem politicamente correto nenhum, olhas para o cartaz da maior parte dos festivais e é essa a regra - e não é por haver falta de artistas mulheres. Então criámos um programa que se chama Women Music, que é aberto e inclui uma residência artística, concertos e um set de conversas com um site americano que é o Creative Independent, com o foco na criação musical feminina entre o contexto americano e o português.

Esta ilha de agora que não é a mesma que deixaste quando foste para a universidade é um lugar em que voltarias a viver?

Às vezes penso que sim, se tivesse uma casa no campo em que pudesse ter uma sensação de isolamento mas também de mobilidade e de acesso, por outro lado às vezes também penso que não porque continua a ter uma dimensão pequena. E é pequeno mas é um lugar muito mais interessante do que era há cinco anos. Mesmo. É surpreendente no sentido em que não páram de aparecer novos estímulos. Claro que, sendo aquele espaço tão delicado, isso dá-me medo. Dão-me medo os vizinhos que ao mesmo tempo são o que me dão curiosidade. Tem mesmo sido uma descoberta constante e surpreendente. Não há aquela coisa de na ilha nos conhecermos todos uns aos outros, vamo-nos conhecendo, no gerúndio. E nesse sentido é super interessante mas também me dá medo. Porque acho que a destruição nunca virá de fora, virá sempre de dentro. 
 

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