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João Lemos Esteves 18/04/2017
João Lemos Esteves

opiniao@newsplex.pt

Sabe quem é o único político português que ansiava por Donald Trump?

Curiosamente, Guterres chegou a secretário-geral da ONU no mesmo momento histórico em que Trump foi eleito presidente dos EUA, com o lema “drain the swamp” – “secar o pântano”

1. É público e notório que os políticos portugueses – da esquerda à direita – apoiaram em uníssono a eleição de Hillary Clinton para presidente dos EUA. Foi um caso de união nacional como há muito não assistíamos: Catarina Martins ao lado de Nuno Melo, ladeados por Luís Montenegro, a declarar o seu apoio à candidata democrata.

2. Pois bem, houve, no entanto, um político português que antecipou a vitória de Donald Trump. Melhor: um político português que desejou, que marcou um encontro na História e pela História com o atual presidente dos EUA. Referimo--nos a António Guterres. Leu bem, caríssimo(a) leitor(a): António Guterres, antigo primeiro-ministro socialista e actual secretário-geral da ONU – a quem o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa se referiu, por centenas de vezes, como sendo “o melhor de todos nós” (como se alguém, mesmo que exerça momentaneamente as funções de chefe de Estado, se pudesse arrogar o direito de escolher o “melhor de todos” da totalidade dos cidadãos que compõem a sua pátria).

3. Entendamo-nos: António Guterres logrou ser eleito para o mais alto cargo político internacional com mérito e trabalho louvável. No entanto, se estamos unidos na formulação de inúmeros votos de sucesso para o português que lidera a ONU, não podemos (sob pena de tomarmos os nossos leitores por “tontos” ou por vítimas de “amnésia histórica” crónica) reescrever o papel que está reservado a António Guterres na política portuguesa das últimas décadas.

Seria um erro crasso e uma desonestidade intelectual pornográfica qualificarmos agora, em 2017, António Guterres como um “primeiro-ministro de elevados méritos”. Como? Elevados méritos? Porquê? Porque revelou um “bom coração”, “voluntarismo” e “uma generosidade extrema” no exercício das suas funções governativas. Essas características fazem de António Guterres uma “boa pessoa”, não um “bom primeiro-ministro”.

3.1 Não confundamos os planos: há pessoas notáveis que são (ou foram) notáveis políticos; há pessoas desprezíveis que podem dar políticos bem razoáveis. E há, finalmente, pessoas notáveis que redundam em políticos desastrados. É precisamente este último o caso de António Guterres: sobra-lhe em voluntarismo o que lhe falta em capacidade de liderança. Sobra--lhe em necessidade de adoração o que lhe falta em poder de decisão.

3.2 E é determinantemente um indeterminado: António Guterres prefere uma má decisão que agrade (ainda que parcialmente) a todos a uma boa decisão que, num primeiro momento, desagrade a alguns. António Guterres segue sempre a política fácil, mesmo quando os momentos são difíceis.

4. E como esquecer a expressão mítica que tão bem caracteriza o período guterrista da história política portuguesa? O pântano: o próprio António Guterres, em 2001, confessou que se ia embora porque ele próprio transformou Portugal num “pântano”.

5. Curiosamente, António Guterres chega a secretário-geral da ONU no mesmo momento histórico em que Donald Trump é eleito presidente dos EUA, com o lema “drain the swamp”.

“Secar o pântano” – Donald Trump chegou a Washington prometendo secar o pântano, convivendo, assim, com o secretário-geral da ONU que ficou conhecido por se demitir das funções de primeiro--ministro de Portugal…porque transformara Portugal num autêntico “pântano”. Para alguém que é especialista em criar “pântanos”, não deixa de ser uma excelente notícia ter um presidente dos EUA que promete evitar e secar o “pântano”… O destino é mesmo uma coisa muito tramada: às vezes, parece que a vida é escrita pelo génio de Woody Allen.

 

P.S. “Secar o pântano” é o título deste nosso espaço de opinião, inspirado pelos anos de António Guterres: é precisamente para denunciar o “pântano” em que se transformou o nosso governo que estaremos aqui semanalmente. Porque, para nós, o desígnio de um país não se pode limitar à eleição de pessoas para certos cargos: mais importante do que eleger António Guterres é tornar Portugal mais competitivo na economia; mais justo na distribuição de oportunidades de triunfar na vida; mais respeitador do dinheiro e do trabalho dos portugueses. Mais importante do que garantir um emprego a António Guterres é garantir que os restantes dez milhões de portugueses têm a oportunidade de prosseguir o seu sucesso e felicidade individuais.

 

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