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Carlos Carreiras 19/04/2017
Carlos Carreiras

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E se as cidades governassem o mundo lusófono?

São as cidades, não as nações, que mais podem contribuir para o crescimento económico, aprofundamento democrático e projeção internacional do grande espaço da lusofonia

A assembleia-geral da UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa reúne em Luanda por estes dias. É da capital angolana que escrevo este texto e é em Angola que lançarei hoje um desafio aos meus parceiros da UCCLA: são as cidades, não as nações, que mais podem contribuir para o crescimento económico, aprofundamento democrático e projeção internacional do grande espaço da lusofonia.

Há mais de 6 mil cidades no espaço lusófono, unidas do Atlântico ao Índico. Mais do que a soma de Estados individualmente considerados, é a relação entre as cidades, e da pluralidade dentro das cidades, que faz da lusofonia uma comunidade de povos com uma força, uma energia e uma diversidade que não tem paralelo. E porquê? Porque os Estados cristalizaram e as cidades avançam. Onde os Estados caem na inconsequência da disputa política, as cidades resolvem com pragmatismo; onde os Estados centralizam poder, as cidades promovem a participação dos cidadãos; onde os Estados só veem identidade e soberania, as cidades veem solidariedade e cooperação. E mesmo quando os Estados voltam as costas uns aos outros, ainda que pontualmente, as cidades continuam sempre a ser uma comunidade de sentimento e pertença para os cidadãos da lusofonia. Pela razão mais importante de todas: é que as fronteiras tradicionais entre os Estados são obliteradas pela transversalidade das comunidades lusófonas, verdadeiras sociedades das nações onde cidadãos de todas as latitudes prosperam lado a lado, no Rio de Janeiro ou em Cascais, em Luanda ou no Maputo.

O papel das cidades na projeção da lusofonia é tanto maior quando percebemos, hoje, que a pólis é a unidade política central do nosso tempo. É que, se o Império dominou o séc. xix, e o Estado-nação o séc. xx, a cidade é a mais relevante (e mais antiga) forma de organização política do séc. xxi. Vários indicadores apontam nesse sentido. Pela primeira vez na história da humanidade temos mais gente a viver nas cidades do que nas áreas rurais. É nas cidades que se concentram as universidades, as empresas, os centros de investigação e inovação, o músculo económico e artístico das nações. As cidades integram e promovem as pessoas de todas as cores e credos. E são as cidades que, já hoje, lideram politicamente novas soluções para velhos e novos problemas, como as alterações climáticas, a criminalidade, o défice de participação cívica ou a integração de migrantes.

Com isto não quero dizer que as cidades podem substituir-se aos Estados. Mas assumo que o reforço das redes de cidades e da interdependência local promove a cooperação global entre nações.

Caberá às nossas cidades, cada vez mais, moldar a alma do espaço lusófono. Ora, se este tempo é o nosso tempo, o tempo das comunidades e das cidades, é nossa obrigação encontrar formas de ultrapassar os protocolos e as conversas inconsequentes nas relações entre os Estados. Temos de trabalhar para que as maiores instituições artísticas ou os mass media cooperem mais, porque assim mais facilmente se afirma uma cultura e identidade lusófona com magnetismo global. Temos de trabalhar para que as nossas escolas intensifiquem a troca de experiências e de saberes, porque assim podemos fomentar uma verdadeira civilização lusófona. Temos de trabalhar para que as nossas empresas prosperem umas com as outras, para que os nossos empreendedores ganhem escala e para que os nossos cientistas quebrem barreiras na investigação, porque só assim criaremos uma economia com escala. Temos de trabalhar para que as nossas cidades falem mais umas com as outras porque, se comunicarmos mais, os erros de uns não serão os erros de todos. Mas o sucesso de alguns pode ser o sucesso de todos.

“Pode a cidade salvar o mundo?” A pergunta é do provocador Benjamin Barber, um homem das ideias políticas, prolífico autor da Universidade de Rutgers e fundador do Parlamento Global de Autarcas. A resposta de Barber é afirmativa. E eu concordo com ele: “O Estado--nação foi a melhor receita para a independência. Mas não está preparado para o tempo da interdependência.” A cidade está, diz Barber, porque foi sempre o habitat natural do cidadão e das primeiras ideias de democracia. Por isso, Barber lança o apelo: “Deixem os autarcas governar o mundo.”

É disto que precisamos no espaço lusófono: de ter as cidades cada vez mais à frente dos processos de integração informal (economia, social e cultural) no mundo que sonha e se entende em português. Em vez dos saudosismos que não nos levam a lugar algum, ponhamos os olhos no futuro e deixemos os autarcas, as cidades e os seus povos continuarem a construir uma comunidade maior e melhor.

Escreve à quarta-feira

 

 

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