22/5/17
 
 
Carlos Zorrinho 19/04/2017
Carlos Zorrinho
opiniao

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A nova guerra fria

A guerra fria, na sua nova roupagem, não será para ninguém, e muito menos para os europeus ocidentais, um conflito longínquo que se pode consultar à hora marcada, nos telejornais do dia ou nas redes sociais

Voltámos à guerra fria. No xadrez geoestratégico, as peças movem--se com um padrão mais complexo e incerto que no ciclo anterior, mas a ideia de conflito generalizado suspenso retornou em força.

No meio da neblina que dificulta a definição do contornos deste novo ciclo da guerra fria, emergem as figuras belicosas de Trump e Putin sob o olhar potente e determinante de Xi Jinping e o esboço desmaiado da alta-representante para a Politica Externa da União Europeia, Federica Mogherini.

No tabuleiro andam estonteados, manipulados ou manipuladores, peões, bispos, cavalos e torres, atropelando as regras, travando combates laterais, procurando amarrar reis e rainhas às suas estratégias e deixando em múltiplas “casas” um rasto de intolerância, destruição e medo.

Voltámos ao duelo “Karpov/Kasparov”, metáfora potente de representação da velha Guerra Fria, mas, agora, a fronteira entre a representação mediática do poder e o poder em si mesmo é bem mais difusa.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, ou o Papa Francisco, entre muitos outros, procuram apelar ao bom senso, mas a sua voz não se sobrepõe ao troar imenso do despertar dos arsenais bélicos, muitos deles perto do fim da validade tecnológica e sob pressão duma indústria que se habituou a ser saciada.

É difícil caracterizar a nova guerra fria, em tempo de ziguezagues e mutações bruscas, mas algumas diferenças em relação à anterior devem ser sublinhadas.

Primeira diferença: trava-se num patamar tecnológico completamente diferente. A dissuasão nuclear permanece, mas a parafernália de instrumentos de guerra de comunicação, informação e contrainformação cresceu exponencialmente. Segunda diferença: um dos protagonistas do novo ciclo, Donald Trump, isolacionista às terças, quintas e sábados e polícia do mundo nos restantes dias, aparenta ter o dedo quente, o que pode ser fatal num conceito tradicional de guerra fria.

Mas a mais insidiosa diferença da nova guerra fria, pelo menos enquanto não se transformar em guerra global segundo os novos padrões tecnológicos, é a diferente natureza das guerras por procuração. Na velha Guerra Fria, elas travavam-se no terreno em zonas delimitadas do planeta, espalhando nesses locais o sofrimento e a destruição. Hoje, elas prosseguem, mas juntou-se-lhes um outro fenómeno: o terrorismo por procuração, mais ou menos organizado, que visa espalhar o medo e paralisar a nossa sociedade.

A guerra fria, na sua nova roupagem, não será para ninguém, e muito menos para os europeus ocidentais, um conflito longínquo que se pode consultar à hora marcada, nos telejornais do dia ou nas redes sociais. Ela será travada junto de cada um de nós. Convocar- -nos-á para sermos soldados vigilantes para a evitar, sem nunca podermos deixar de ser potenciais vítimas aleatórias do seu desenvolvimento.

Em democracia, cada um de nós tem no voto a arma mais potente contra a guerra fria. Se desperdiçarmos essa arma, como tem sido desperdiçada em eleições recentes um pouco por todo o mundo, serão outras as armas a marcar a nossa vida e o nosso futuro coletivo.

Eurodeputado

 

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