22/5/17
 
 
António Galamba 20/04/2017
António Galamba

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Cartilhas há muitas…

Desde os primórdios do sopro democrático que existem cartilhas e nunca foram atentatórias da margem de discricionariedade individual ou coletiva.

Quarenta e três anos depois da implantação da democracia, até parece que alguns só agora descobriram que existem cartilhas de apoio à comunicação e à ação num determinado sentido. Até parece que não foi sempre assim quando existe um mínimo de organização. Livros de estilo, códigos de conduta, argumentários ou guiões são tudo expressões do desejo de ordenar a palavra e ação num determinado sentido, seja o da alegada imparcialidade ou o da mais verrinosa parcialidade, resultado de sintonia ou compromisso com determinadas ideias ou objetivos.

Desde os primórdios do sopro democrático que existem cartilhas e nunca foram atentatórias da margem de discricionariedade individual ou coletiva. Na ditadura, existindo estes prontuários, a margem de arbítrio e liberdade era bem menor ou inexistente.

Alguém acredita que nas mais diversas atividades humanas com organização e sentido estratégico não existem orientações para o que deve ser dito em determinados momentos para defender o respetivo interesse institucional, uma orientação estratégica ou uma posição conjuntural? Não é assim com quem dá a cara por uma grande empresa, um clube desportivo, um partido político, uma instituição europeia ou uma organização internacional? Espera-se que digam apenas o que lhes vem à cabeça ou há sempre algum sentido de articulação?

Alguém acredita que, por exemplo, numa campanha eleitoral ou no momento de transmissão de uma determinada mensagem, o emissor não tem o cuidado de observar um conjunto de regras de comunicação sobre o que diz e como o diz? Um candidato a primeiro-ministro prepara um debate, um comentador televisivo ou afim não faz o trabalho de casa?

Alguém acredita que a comunicação empresarial ou comercial, destinada a promover uma ideia, um produto ou um serviço, não obedece a regras? Têm regras de estilo fonéticas, visuais e gráficas, normas rigorosas para a transmissão da mensagem: o que é dito, como é dito, quando é dito, onde é dito.

É esta dimensão social da hipocrisia que se indigna com as cartilhas, mas convive bem com o facto de, um ano depois da divulgação da notícia de que havia políticos e jornalistas avençados pelo saco azul do GES, quase não se saber nada sobre quem eram os contemplados com os aditivos financeiros para palavrar e agir. No Brasil, a Operação Lava Jato, baseada na denúncia de 78 ex-quadros da construtora Odebrecht, iniciada em dezembro de 2016, decretou a abertura de inquéritos judiciais a 98 políticos, todos identificados. O processo até apanhou o guru publicitário das campanhas eleitorais legislativas de Pedro Passos Coelho e do PSD, André Gustavo.

O problema não são as cartilhas, que sempre existiram. O problema é a falta de capacidade para se fazerem as triagens necessárias, sejam na configuração do que se quer escrever ou dizer, seja na receção das mensagens que integram a informação, a publicidade ou a propaganda. O drama é quando a acefalia se sobrepõe à racionalidade, ao pensamento próprio ou à genuinidade. Quando um qualquer comentador político ou desportivo tem obrigação de ter mais arcaboiço para fazer qualquer tipo de triagem, por menor que seja, do que um jornalista precário, num qualquer órgão de comunicação social, pago na órbita do salário mínimo nacional. Quarenta e três anos depois de reganharmos a liberdade de expressão como direito, ainda falta o caldear do seu exercício com responsabilidade e não permitir que as circunstâncias se sobreponham aos direitos e deveres. Mal vai uma sociedade que já não se preocupa com a carta nem com quem a deve entregar a Garcia. A mesma comunidade de destinos que permite que os fins justifiquem todos os meios, o que, na era digital, acrescenta novos riscos à nossa vivência em comunidade e como cidadãos, nomeadamente os da violação da privacidade e das nossas esferas privadas de liberdade.

Alguns indignam-se com o acessório, mas convivem bem com a construção de uma sociedade de cidadãos pouco habituados a questionar, a exigir e a agir em coerência. Participação, escrutínio e exigência nunca fizeram mal a ninguém, sendo mesmo um importante pressuposto para novos equilíbrios nas sociedades modernas, onde o tradicional se cruza com o moderno e o digital.

Notas finais

Carimbo postal. A criatividade autonómica de alguns pais, à margem das regras da sociedade, está à vista no surto de sarampo. Infelizmente, já com a perda de uma vida. Os que não vacinaram os filhos deveriam, no mínimo, suportar os custos para o Serviço Nacional de Saúde da resposta ao surto.

Correio azul. A prontidão com que o Presidente da República se deslocou à ocorrência de Tires definiu a bitola e fez esquecer a ausência dos representantes governativos da administração interna e da proteção civil do local.

Selo. Parecê-lo. Depois de meses sem pio nem ação relevante, Mário Nogueira da FENPROF ameaça com greve na educação, no terceiro período, fase decisiva para as crianças e jovens. Já vai sendo tempo de os instalados no sistema deixarem de olhar para o seu umbigo e pensarem um pouco nos destinatários dos serviços públicos.

Post Scriptum. Depois de terem entronizado Benoît Hamon com faustas receções em Lisboa, acho piada ao esforço de reconversão de alguns socialistas a Emmanuel Macron. Ficar em segundo sempre é melhor que ficar em quinto, embora as sondagens, lá como cá, já tenham tido melhores dias. As sondagens ou a fiabilidade dos entrevistados.

Militante do Partido Socialista

Escreve à quinta-feira

 

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