27/6/17
 
 
Ricardo Costa 20/04/2017
Ricardo Costa

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EUA e Rússia, outra vez

As provas de força de Trump e as provas de intervenção de Putin podem fazer caminhar o Mundo para o conflito e o realinhamento político e militar

Aparentemente a América de Trump está a fazer prova de vida no areópago da política externo-militar. E, com isso, o Mundo, tal como o conhecemos com o “não intervencionismo” diplomático de Obama, acorda para uma outra realidade e pode dar uma volta na coordenação dos países (nomeadamente os que dispõem de arsenal nuclear). Os mísseis na Síria, a bomba no Afeganistão e as movimentações da marinha no Pacífico (com coligação activa do Japão) parecem mudar a rota para uma América musculada e proactiva (com aviso prévio junto do colosso chinês). Segundo alguns, estamos apenas perante a manifestação do ADN dos republicados mais radicais, com assento na administração do novo Presidente. Segundo uma outra corrente, teremos uma óbvia manobra de diversão para desviar o foco das trapalhadas, impotências e frustrações em relação às mudanças prometidas face ao legado democrata. Punitivas ou preventivas, o mais certo é que tantas medidas em tão pouco tempo, mesmo que justificadas em diversas bases e “inimigos” (anti-Assad, anti-Daesh e anti-Coreia do Norte), têm o condão de acordar o conflito adormecido e maior: a relação EUA-Rússia. Esse é o problema de fundo, pois sempre haverá problema quando um dos dois (sendo um deles o sucessor da desagregação da União Soviética) quiser demonstrar poder com força.

Uma das vertentes desse problema é que a Rússia nunca se inibiu, durante o consulado de Vladimir Putin, de partir para a intervenção “regional” e, pelo caminho, motivar a agregação do seu aparelho militar e consolidar princípios de temor geoestratégico. Um líder com as características e o percurso de Putin nunca o deixaria de fazer, mas só o tem feito – como se tem provado no conflito sírio – com a anuência e a passividade dos EUA, da China, da União Europeia e da ONU. Fazendo uma espécie de guerra (ou guerras) “quentes”, depois de esvanecidos os escombros da guerra “fria”. “Quente” porque não se minimiza ou previne riscos, antes se assume uma posição bélica activa e dominadora, que ressuscita sempre uma espécie de “imperialismo romanista” megalómano, que os abates de muros e cortinas não apagam. Ora, se os EUA fizerem o mesmo, com uma estratégica “unilateral”, proteccionistas e imune aos prognósticos da conflitualidade, a tensão desce à terra e o embate parece ser inevitável e de consequências imprevisíveis. Com que dimensão, logo veremos.

Uma outra vertente do problema é o posicionamento dos demais em face da beligerância EUA-Rússia. Muito do que se passará depende desse alinhamento – ou realinhamento, se viesse a acontecer. Se o empreendedorismo americano nos teatros dos adversários for acompanhado por vitórias políticas e diplomáticas, a questão resolver-se-ia por si própria: a Rússia ficaria mais isolada. O que significa não ter a China do seu lado e ficar apenas com as diversões da Coreia ortodoxa e as afirmações de Teerão. Porém, se – no que agora mais interessa – a Rússia prosseguir no intento de vitória militar na Síria e conseguir afastar de todo a solução pacífica, poderá ter que aliciar um ou mais dos aliados clássicos dos EUA, de modo a legitimar a sua recusa em abdicar da destruição material e da tragédia humana dos refugiados. O que seria ganhar uma outra guerra, além dos tratados e dos acordos do comércio. Neste limbo, por enquanto, Putin atira acusações contra Washington e joga tudo na paciência do tempo e no encobrimento dos movimentos. É um jogador de xadrez, russo. E basta. Do outro lado, os EUA dão o sinal de que a paciência e o encobrimento também se abatem com estrondo. À lei da bomba.

Aqui estamos, pois, à espera. De um cataclismo ou do juízo que a história aconselha.
Professor de Direito da Universidade de Coimbra. Jurisconsulto.
Escreve à quinta-feira

 

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