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Rosa Oliveira “Neste país, a literatura sempre foi 100 pessoas a escreverem para as mesmas 100”

Rosa Oliveira “Neste país, a literatura sempre foi 100 pessoas a escreverem para as mesmas 100”

Diogo Vaz Pinto 24/04/2017 12:51

A estreia “tardia” de Rosa Oliveira na poesia marcou também o arranque da coleção de poesia da Tinta-da-China. Nascida em Viseu, em 1958, a par dos talentos de leitora, os seus poemas usam a literatura, a música ou o cinema, como estratégia para esclarecer a sua própria biografia, entrando e saindo, reencenando-a

A entrevista a Rosa Oliveira foi difícil. Reticente, sem trazer já uma cassete, pesou cada palavra, assumindo a dificuldade de formular uma frase. Fica claro esse imperativo de cercar uma verdade e encontrar a sua justa expressão, fazer mais do que rever a matéria dada. Da poesia devemos esperar “frases verdadeiras”, disse Ingeborg Bachmann, e isso é mais e também, por vezes, menos do que fazer sentido. A entrevista tornou-se um género banal, e aos nossos dias parecem chegar de um tempo que nos é, em tudo, estranho as imagens de um programa televisivo em que Pasolini respondia a um painel de entrevistadores, e eram eles os mais nervosos. Se a pergunta que lhe faziam era estúpida, fazia questão de reformulá-la. Há ainda a memorável cena de “Palombella Rossa”, em que a personagem de Nani Moretti perde a cabeça e esbofeteia a jornalista que o entrevista e que, a cada frase, destrata as palavras. Na poesia de Rosa Oliveira existe margem para a hesitação, para o que se diz e o que se evita, para o que a vida perdeu a oportunidade de dizer. A rosa que era uma rosa, sai fora desse ciclo, desce desse estado de flor consagrada, e desgraça a sua virtude simbólica, volta atrás, e fura a pele das aparências. Isso explica a perspetiva da sua poesia, que tem como sua verdadeira matéria o passado, detendo-se nele para ajustar contas. Isto também explica como talvez só um poderoso sentido nostálgico a tenha libertado finalmente para dar esse passo que, por muito que este tempo tenha banalizado, para ela continua a ser um enfrentamento.

Tinha 55 anos quando publicou “Cinza”, o seu livro de estreia enquanto poeta, e que lhe valeu um prémio de revelação, mas desde a adolescência que vinha acompanhando o que se fazia em Portugal. Que leitura foi fazendo do nosso meio poético?

Fui sobretudo uma leitora, e mais até de romance do que de poesia ou ensaios. Tinha escrito poesia na adolescência, umas imitações muito más, do Eugénio de Andrade e assim… (Poeta que, hoje, não leio.) Tinha começado com Sá Carneiro e Pessoa, mas nesses o embate é tão grande, sobretudo com o Álvaro de Campos, que uma pessoa fica desencorajada, a pensar que depois daquilo mais vale ficar a digerir. Foi depois, com poetas mais acessíveis, que tentei escrever. Mas era muito mau. Morreu tudo na gaveta. Ainda escrevi um romance, que era muito experimental, e só agora me apercebo de que estava entalada entre os dois géneros. 

Foi esse o romance que enviou para um prémio, e em que ficou em segundo lugar? Tendo ganho a Lídia Jorge, e, no qual, a concurso estava também Hélia Correia. Tinha que idade?

Exatamente. Isso foi em 1978, teria 19, 20 anos. Era um romance dado a todo o tipo de brincadeiras, experiências. Tinha textos que podiam ser poemas pelo meio, cartas, fotografias… Era uma descoberta, misturava tudo. 

Com que idade é que se deu aquele episódio que relata num dos poemas de “Tardio”, quando foi com Luís Miguel Nava ouvir Alexandre O’Neill ler poemas num ginásio aos estudantes?

Isso foi na altura do PREC, em 1976 ou 77.

E já conhecia a poesia do O’Neill?

Conhecia mal, de o ler em algumas antologias. Como digo no poema, fui comprar o único livro então disponível, “No Reino da Dinamarca”. Na altura tinha muito poucos livros de poesia. 

O que sentiu ao ouvir O’Neill ler os seus poemas no ginásio?

Estava maravilhada. É uma memória que estava escondida e de que me lembrei há relativamente pouco tempo, com o poema a sair, então, quase por inteiro, numa conversa com a minha irmã [Maria Antónia Oliveira, biógrafa de Alexandre O’Neill]. Ela até se queixou que não lhe tenha contado o episódio antes, a tempo de o meter na biografia. Mas foi uma memória que regressou do passado. Surgiu a imagem afetiva, e o baque que foi para mim ouvi-lo ler na minha adolescência.

O livro da sua irmã sobre o O’Neill tem um final bastante infeliz, sendo uma excelente biografia de um dos nossos melhores poetas, foi mandado guilhotinar pela editora.

Sim, e com pessoas ainda a interessarem-se pelo livro. Ela tem tido muita dificuldade em fazer o seu trabalho como biógrafa neste país. A do O’Neill foi-lhe pedida pela Dom Quixote. Como era um escritor de eleição para ela, disse logo que sim. Mas ela queria fazer mais biografias, falta é quem contribua para que se conte a história das figuras importantes deste país. 

Foi o Luís Miguel Nava que lhe incutiu esse interesse pela poesia?

Ele sabia que queria ser poeta desde os 15 anos. Eu sabia que queria escrever, mas não sabia o quê. Era essa a nossa diferença. Comecei pela poesia e era muito má. Tentei o romance, também não funcionou. Depois só escrevia coisas soltas, pequenos textos. Nada que eu pudesse reunir e que merecesse ser publicado. No fundo, era um exercício de treino. Só muitos anos depois, talvez devido à internet, por ter começado a partilhar coisas nos blogues, é que ganhei essa distância que me levou a questionar por que o fazia num blogue e não num livro. A internet desbloqueou qualquer coisa. 

Teve alguma reação aos poemas que publicou na internet?

Eram pequenos textos: irónicos, críticos, pelo meio, poemas… uma misturada de géneros. Quando começou a aumentar o caudal dos poemas é que pensei em continuar a escrevê-los, mas com mais calma, trabalhando-os, pensando em reunir alguns. Foi uma espécie de reação em cadeia dentro de mim mesma. Começaram a surgir uma série de poemas, alguns como reformulações de textos, pequenos contos, aos quais nunca consegui dar uma forma final. Achava que tinham palavras demais, então tirei-as e ficaram poemas. 

Responde neste segundo livro às reações ao primeiro, a terem classificado a sua estreia como tardia. Diz que, no seu caso, se isso se ficou a dever a uma certa hesitação, fala dessa hesitação como sendo a própria vida, uma atitude contemplativa face a ela. Sente que falta hesitação a muita da poesia portuguesa, falta de capacidade contemplativa?

Comecei por escrever cedo demais, agora estava a escrever tarde demais. Pelo meio houve um tempo muito largo de interregno, sem dúvida. Poderia ter dado o passo. Era algo que me assustava porque sentia que não tinha grande coisa para dizer. A questão fundamental era essa. Se a uma segunda leitura as coisas já não me interessavam, lixo. A hesitação teve também a ver com uma atitude perante a vida, o sentir que é difícil dizer as coisas, difícil exteriorizá-las, formulá-las, torná-las claras… De repente, tornou-se mais fácil. Mas qualquer dos livros tem muito trabalho por trás.

O primeiro livro, que decorre desse longo período de estágio, conta com poemas escritos ao longo de mais de cinco anos. E este?

Também. Tem alguns que não entraram no outro porque não os sentia ainda prontos. Outros foram escritos logo a seguir. Não têm, na sua maioria, um estágio tão longo. Mas há um espaço de quatro anos entre os dois livros. Há textos que ficaram fora quer de um livro quer do outro e que talvez passem para um terceiro, porque ainda não os consegui ter no ponto. 

Parece haver uma diferença de tom entre um livro e o outro. O primeiro mais arredio, em tantos aspetos muito combativo, a dar a sensação de que algumas ideias podiam ter sido exploradas num ensaio… Sente-se um corpo a mexer para se libertar de uma camisa de forças. Já o segundo é mais íntimo, começa a revelar um caráter mais exposto, mais pessoal. Também as fotografias da sua infância e com a família despertam no leitor a sensação de uma abertura à intimidade.

Isso corresponde precisamente ao percurso que fiz. O primeiro ainda era a libertação dessa camisa de forças. Neste, o terreno já está mais aplanado, e posso ir avançando com mais confiança. Se consegui isso, ótimo. Se isto funcionasse como uma forma de terapia, teria passado a uma segunda etapa. Mas também há aqui textos que foram muito retalhados. 

O primeiro livro foi distinguido com um prémio revelação, inaugurou a par de um outro a coleção de poesia da Tinta-da-China, esgotou uma primeira edição de 500 exemplares, algo tão difícil em Portugal quando se trata de poesia, mas mesmo assim este é um tempo em que a poesia tem menos repercussão do que nos tempos em que começou a interessar-se por ela. O que mudou de lá para cá?

Tudo mudou muito. O mundo mudou muito, não só em relação à edição de livros. Mas publica-se hoje muito mais. Há mais variedade e isso também no que toca à qualidade. Quanto à receção: a crítica está de rastos, mas a verdade é que neste país nunca foi portentosa. Neste país a literatura sempre foi 100 pessoas a escreverem para as mesmas 100. Não sei se isso se terá alterado muito. O que acontece é que antes, editando-se menos, quando certos livros saíam nós sabíamo-lo, íamos à procura. Mas o mesmo se passava com a música, com o cinema. Ao democratizar-se o acesso à cultura, há muito mais coisas mas também a reação a elas se torna muito mais ligeira e passageira. 

Há algumas décadas, os poetas eram figuras que gozavam de uma certa aura. A própria vida deles refletia muitas vezes uma luta, uma vontade de se libertarem dos constrangimentos de uma realidade pequena. Em “Cinza” diz: “a literatura está cheia de gente com prosápia/ gente acéfala que recebe prémios/ e quando não recebe/ descalça-se e geme de olhos fechados como os fadistas/ os fadistas da literatura ainda são mais intoleráveis/ que os fadistas de viela”. Revela um certo “nojo” pelo meio literário de hoje.

Admiro a crítica, porque é uma posição muito penosa. Para mim é penoso porque me custa em termos criativos assumir um discurso crítico. Se calhar foi essa uma das razões da minha escrita tardia. Tentei fazer ensaio. Gosto muito de ler ensaio, mas é muito duro. Tira anos de vida, ler sobre os assuntos, estar bem informado, refletir sobre eles e depois escrever sobre eles. Não quer dizer isto que não aproveite os poemas para ir refletindo lateralmente, ou deixando cair algumas opiniões sem grandes responsabilidades sobre o meio literário. As questões pessoais passam-me um pouco ao lado. O que me provoca nojo mesmo é o pedantismo. Nas artes é duplamente penoso. Não penso que os artistas tenham de estar sempre de mão dada com o povo, mas por que é que hão de ser pessoas diferentes? As angústias dos poetas ou dos artistas não valem mais que as outras. 

Deixe-me fazer-lhe a pergunta que fizeram ao O’Neill e que o deixou tão pouco à vontade: O que é a poesia?

De há alguns anos a esta parte, é um alívio. Enquanto fui apenas leitora era um constrangimento e algo que me provocava admiração. Em relação aos poetas que gosto mais, continuam a constranger-me. Não posso lê-los durante muito tempo, de outro modo fecho-me, não tenho vontade de dizer mais nada, sentindo que já está tudo dito. Criando alguma distância, então sim, surgem as coisas, naturalmente. Para mim tem qualquer coisa a ver com estar em movimento. Ainda há dias lia “Um Verão com Montaigne”, de Antoine Compagnon, publicado pela Gradiva, a partir de uma conferência na rádio, precisamente sobre o inventor do ensaio, em que Compagnon referia que para Montaigne o disparar do pensamento ocorre sempre em movimento. Para ele, enquanto andava a cavalo. Para mim, o mais importante é ler, ler muito. Não acredito que se possa escrever sem ter lido muito. Também ver cinema. A música já esteve mais presente. Depois, a própria vida cria alguma almofada e ajuda-nos a encarar algo que antes não era aparente. 

Estes dois livros começam com letras de canções. O último, do Bob Dylan.

Sim, já estava escolhida antes da atribuição do Nobel. Como a do próximo, que é do Leonard Cohen, foi escolhida antes da morte dele. 

A atribuição do Nobel a Dylan, o que lhe pareceu?

Bem. São grandes letras, às vezes até mais as letras do que as músicas, embora muitas vezes sejam indissociáveis. Os livros começam com estas homenagens porque são músicas e letras importantes lá atrás, na história da minha vida enquanto ouvinte de música.

Na sua poesia cita ou refere tantas vezes poetas como Ruy Belo, Cesariny, O’Neill, no entanto, lendo os seus poemas, estes parecem mais próximos de poetas que estão a publicar neste momento. 

As minhas referências são de facto anteriores. Mas vivo hoje, é natural que diga as coisas de uma forma que se cruza com o de outras pessoas que estão a escrever agora. O lastro sobre o qual fui construindo as minhas leituras vem de trás, mas continuo a ler o que tem saído até agora. Estando neste tempo, é natural que as nossas vozes se cruzem. Concorrem as duas coisas, aquilo que fui lendo e o estar atenta ao que se passa hoje.

O que a levou a expor no livro fotografias da sua infância e juventude?

A presença das fotografias aqui, além das dedicatórias e homenagens que vão surgindo ao longo dos textos, são uma forma nostálgica de completar os textos. E é também a confirmação deste título, “Tardio”. Assumo perfeitamente que é tardio, que fui esta pessoa. Há aqui uma série de poemas que são biográficos. Senti que, para reforçar esta ideia de “tardio”, ir recuperar imagens do passado seria importante. Até porque muitas vezes quando escrevo estou com nostalgia em relação a esse tempo. Se para mim a literatura é importante, há uma coisa que se sobrepõe a isso que é a própria vida. É o único mistério. O resto são conjeturas.

E a esse nível qual será o poema mais revelador deste livro?

Talvez o mais violento seja o poema da página 46, “cazaquistão”. Dedico-o à minha irmã e foi escrito a pensar na nossa mãe. É praticamente o único em que uso maiúsculas. É o mais violento afetivamente. (“O casaco jaz na mesa de jantar/ O casaco é de malha e estamos no verão/ O casaco tentou aquecer três mulheres de granito/ O casaco desistiu, manquejou, perdeu a memória, desligou-se/ O casaco nadou nas lágrimas escuras do roupeiro/ O casaco fugiu para a tepidez lisboeta/ O casaco saltou casas incansáveis/ O casaco embalou uma mulher/ O casaco perdeu quase tudo/ O casaco permanecia/ O casaco embrulhou-se em vidro/ O casaco foi conhecer céus algarvios/ O casaco jaz na mesa de jantar/ O casaco era da mãe/ A mãe estará sempre no casaco”).

Qual é, nos seus poemas, a questão mais importante?

Quando éramos adolescentes, em conversa de amigos, perguntávamo-nos qual era a questão mais importante para nós. Tinha um que me dizia que para ele era “o outro”. Eu disse sempre, e continuo a dizer, que para mim o mais importante é o tempo. Estou sempre atrasada, ou adiantada, ou não estou a tempo... Esta sensação de ver o tempo a passar e de não estar alinhada com ele. Nos meus poemas um aspecto que me interessa particularmente, e não vejo muito presente na poesia actual, é a ligação à teoria literária. Nem que seja por interposta ironia. Há vários poemas que vão por aí neste livro.

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