23/5/17
 
 
Mário Cordeiro 16/05/2017
Mário Cordeiro

opiniao@newsplex.pt

A falar é que a gente se entende

A terminologia sexual como barreira na comunicação

“Doutor (leia-se Pai, Professor, etc). Estou a pensar em curtir com a minha namorada!”.

O que é que esta frase significa? Para o adolescente que a diz e para o adulto que a ouve? É bom, pois, que nos entendamos sobre de que é que estamos a falar…

Um estudo realizado no Texas, teve como objetivo analisar o grau de comunicação e compreensão do conteúdo das mensagens, identificando a terminologia sexual utilizada pelos adolescentes.

Participaram cerca de duzentas crianças e adolescentes entre os 9 e os 19 anos, pertencentes a vários grupos étnicos, e o estudo teve a forma de um questionário auto-preenchido, administrado num atendimento escolar de saúde de adolescentes e num exame pré-participação em atividade desportiva. O questionário baseava-se fundamentalmente em duas questões: “que termos utiliza na conversa com os amigos” e “que termos utiliza ou utilizaria na conversa com o médico”, relativamente às seguintes definições: ânus, feridas genitais, corrimento vaginal, doenças sexualmente transmitidas (DST), menstruação, movimentos intestinais, parceiro sexual, ejaculação, pénis, pílula anticoncecional, preservativo, relações sexuais, testículos, vagina, e vulva.

Os resultados indicaram que os adolescentes deste estudo utilizam uma grande variedade de termos para indicar a mesma definição, e que utilizam por vezes o mesmo termo para definições diferentes – este aspeto é considerado sobejamente importante para a compreensão, por parte dos adultos, designadamente dos médicos, das queixas dos adolescentes.

Os autores consideraram que algumas das respostas indicam falta de rigor e ideias vagas, embora tenhamos de reconhecer os pontos fracos e limitações inerentes a este tipo de estudo. O grau de desconhecimento relativamente às doenças sexualmente transmissíveis, à exceção da SIDA, e mesmo assim com inúmeras lacunas, foi também tido como preocupante. Muitos adolescentes nunca tinham ouvido falar de sífilis ou gonorreia! Uma grande percentagem pensava que só se engravidava durante cinco dias do ciclo menstrual.

Outra das conclusões é a de que conversar com adolescentes sobre sexualidade ou assuntos com ela relacionados, é fundamental que os pais, ou os profissionais de saúde ou de educação, e os próprios jovens se entendam acerca do que estão a referir. Os investigadores sugerem também que esta “acareação” se faça num sentido bilateral.

Comentários… Este estudo foi realizado com médicos mas, de uma maneira mais lata, poderíamos estendê-lo a todos os adultos, sejam pais, sejam profissionais da saúde, da educação ou outros.

Estando a promoção da saúde e a resolução dos grandes problemas de saúde que afetam as populações de várias idades, designadamente os adolescentes, intimamente ligados aos comportamentos e ao grau de risco ou de proteção dos diversos comportamentos, a informação e a negociação, entre pessoas de carne e osso e não na Internet ou em qualquer rede social, constitui um processo fundamental nos contactos entre os adultos e os jovens.

Para negociar comportamentos e para informar e ajudar a equaciona as diversas perdas e ganhos – a curto, a médio e a longo prazo, para o próprio, para terceiros e para a sociedade -, que resultam das várias opções em causa, é necessário comunicar. Comunicar é muitíssimo mais do que informar, do que falar, até inclusivamente do que ouvir e escutar. Mesmo com a melhor das boas vontades, se não houver entendimento entre os interlocutores, tal como numa rádio mal sintonizada, ouvir-se-á um irritante ruído de fundo que tornará ininteligível qualquer palavra ou frase, o que, por cansaço e falta de sentido, levará ao rápido abandono do hipotético diálogo.

É curioso, por outro lado, que uma geração que tanto lutou pela liberdade de expressão e da utilização da palavra, bem como pela libertação dos tabus sexuais, tenha tamanhas dificuldades em se encontrar com a geração seguinte, no que diz respeito ao diálogo sobre este tipo de assuntos. Mas “no melhor pano cai a nódoa”, lá diz o ditado, e estes problemas de comunicação hão de surgir em todos os tempos e em todas as gerações.

Este estudo teve o mérito de pôr o dedo numa importante ferida e lançar o debate – repito que onde se lê “médico” se pode ler “qualquer adulto”. Que cada um de nós faça um exame de consciência em relação à atitude que temos com os adolescentes – sejam eles nossos filhos, alunos ou utentes – e, de forma geral, com as pessoas de todas as idades.

Adultos a armar em adolescentes – “Não!”, obrigado Claro que é ridículo e quase patético ver um adulto utilizar expressões “juvenis” só para (supostamente!) melhorar a aceitação com os adolescentes e ultrapassar algum mal-estar que decorre de estar a “enfrentar” ou a confrontar-se com pessoas de gerações diferentes, com gostos diferentes mas, principalmente (é esta a origem do mal-estar) que não têm nada a perder e que “chamam os bois pelos nomes”, sem papas na língua. Mais, pessoas que querem a verdade e o rigor, mesmo que tentem simultaneamente (e se tentam!) manipular o parceiro do diálogo. Mas se cheira a falso um discurso “adolescentófilo” e se se nota logo quando se cai nesse tipo de armadilha, também é bom saber, quando falamos com alguém, do que é que ambos estamos a falar e se a pessoa com quem falamos entende o que queremos dizer com esta ou aquela expressão.

Tal como numa peça de teatro, desempenhar bem um papel não é misturar as deixas e os diálogos, mas também não quer dizer que se ignore o papel e as falas dos outros atores. Bem pelo contrário.

Para negociar é preciso conhecer a linguagem do parceiro ou, pelo menos, arranjar consensualmente uma fórmula comum de comunicação. Para mais, enquanto se tenta descobrir a palavra do outro está-se a dialogar e a entrar num dos elementos mais importantes da negociação, que é a confiança e a boa vontade.

PS. O Ministério da Educação define a educação sexual como obrigatória e não opcional, por se tratar de um assunto fundamental e não acessório (designadamente na Lei n.º 60/2009, de 6 de Agosto. No 3º ciclo, a educação sexual não deve ser inferior a 12 horas anuais, e deve ser desenvolvida no contexto das disciplinas e em iniciativas extracurriculares, abordando temas como a fisiologia, a puberdade, a reprodução, a prevenção da gravidez e das Infeções sexualmente transmissíveis, bem como diversas outras questões que são assuntos de cidadania, como o respeito pela igualdade de género; o respeito pela diversidade em matérias de identidade de género e de orientação sexual; o respeito pela ideia de consentimento (essencial na prevenção do abuso e violência sexual) e o entendimento das fronteiras entre privado/público (essencial numa época em que os miúdos partilham constantemente as suas vivências pessoais em plataformas virtuais).

Quantas escolas cumprem a Lei? Fica a pergunta…

 

Pediatra

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