25/6/17
 
 
Carlos Carreiras 17/05/2017
Carlos Carreiras

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Recordando Barber: deixem os autarcas governar o mundo

Barber dizia com graça (e cito livremente) que consertar uma sarjeta não é um assunto de direita ou de esquerda. Qualquer autarca sabe do que Barber está a falar

A 19 de abril publicava neste espaço um texto com título em forma de desafio: “E se as cidades governassem o mundo lusófono?” Como explicava, o título era pedido emprestado ao livro “If the Mayors Ruled the World”, do académico Benjamin Barber, um homem de grande envergadura intelectual e, com 18 livros publicados, um dos grandes pensadores do fenómeno urbano do nosso século. A equipa das Conferências do Estoril, um dos mais importantes fóruns de discussão em Portugal, que se se realiza já entre os dias 29 e 31 de maio, reconhecendo a importância de Barber no lançamento de novas instituições de governação multilateral – como o Parlamento Global de Autarcas, o GPM –, tinha-o convidado a vir até ao Estoril apresentar as suas ideias disruptivas. Todavia, intuía que a sua vinda a Cascais seria dificultada pelo diagnóstico recente de um cancro.

As ideias inspiradoras de Barber merecem ser difundidas. Crente na capacidade local de fazer uma diferença global, Barber dizia com graça (e cito livremente) que consertar uma sarjeta não é um assunto de direita ou de esquerda. Qualquer autarca sabe do que Barber está a falar.

Esta predisposição pragmática vai ao coração do seu argumento de defesa da cidade como unidade de governo mais essencial da vida política no tempo da globalização. “As cidades são o berço das inovações culturais, sociais e políticas que moldam o nosso planeta”, sustenta o académico, para quem é na urbe que encontramos a incubadora natural do cidadão e das primeiras formas de participação política e das primeiras ideias de democracia.

Há outra razão, porém, que justifica a primazia da cidade sobre as outras formas de governo.

“As cidades estão libertas do peso das fronteiras ou da soberania que impede os Estados de se relacionarem uns com os outros.” Aqui mesmo, em Cascais, somos exemplo dessa ausência de coerção da soberania e da fronteira. Há uns anos, num encontro de cidades geminadas, conseguimos sentar à mesma mesa o mayor de Sausalito (cidade norte-americana vizinha de São Francisco) e o mayor de Gaza (Palestina), duas cidades geminadas com Cascais, numa altura de tensão máxima na relação dos Estados Unidos e de Israel com a Palestina. Todos concordaremos que as cidades conseguiram fazer no plano local o que seria altamente improvável à época, para não dizer impossível, no plano nacional. Isto sucede não apenas pela libertação de constrangimentos de política externa, mas também porque as cidades, por definição, são construídas na pluralidade. Por isso, se o Estado-nação foi a melhor receita para a independência, é a cidade a melhor maneira de gerir o tempo da “interdependência”.

Acrescento mais três argumentos a favor da cidade que Barber gostava de sublinhar: (1) porque têm o escrutínio dos cidadãos mais próximo, as cidades são mais pragmáticas e avançam onde os bloqueiam; (2) a urgência dos problemas que as cidades enfrentam tira espaço ao confronto ideológico, tantas vezes responsável pela paralisia institucional; (3) as cidades redistribuem poder e promovem a participação dos cidadãos, enquanto os governos nacionais centralizam o poder e tendem a cavar uma distância para as pessoas.

Por todas estas razões, e nem sequer vou ao argumento económico que podia ser acrescentado à lista, Barber apela a que deixem os “autarcas governar o mundo”.

Cascais, câmara que lidero, não tem a pretensão de liderar o mundo – tal como, pelas razões acima mencionadas, eu não tenho nenhuma pretensão a fazer política executiva sem ser autárquica e em Cascais. Mas tem o objetivo e a missão de contribuir com soluções locais para problemas globais. Quer, à sua escala e com os seus meios, fazer a diferença. A imigração, a criminalidade, as alterações climáticas não são problemas de alguns. São desafios de todos. Esta filosofia é hoje partilhada por muitas autarquias portuguesas de norte a sul. Quanto a Cascais, continuará a pugnar pela ideia de cidade “inclusiva, resiliente, solidária e sustentável” idealizada por Barber.

Entre a voracidade mediática dos nossos dias, perdi a notícia do seu falecimento – que, na verdade, apenas um jornal português relatou. Foi no dia 24 de abril, apenas cinco dias depois de ter falado no seu nome nestas páginas. Deixou como última declaração pública um apelo à ação dos autarcas de todo o mundo com assento no GPM, onde Cascais está desde a primeira hora: “Obrigado, caros amigos, pela vossa liderança no GPM, que eu acredito estar pronto para ser uma organização de grande importância e que oferecerá alternativas ao populismo nacional e às abordagens idiotas aos assuntos internacionais como a ‘América primeiro’ ou a ‘Rússia primeiro’.”

Que o seu legado global viva e o poder transformador das suas ideias dure.

 

Escreve à quarta-feira

 

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