25/6/17
 
 
Carlos Zorrinho 17/05/2017
Carlos Zorrinho
opiniao

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Contra o vírus dos falsos consensos

O consenso como resultado do debate e do confronto de ideias é um motor de progresso e desenvolvimento sustentável. O consenso sem contraste mata a participação

Os partidos socialistas e sociais-democratas europeus foram-se tornando, nas últimas décadas, movimentos interclassistas, promotores de consensos e equilíbrios na sociedade, para concretizarem os seus valores inspiradores, como a liberdade política, a igualdade de oportunidades e a justiça social. Fizeram- -no com resultados indiscutivelmente positivos.

Entretanto, o mundo mudou. A globalização aprofundou as desigualdades. A revolução tecnológica enfraqueceu o poder dos governos nacionais. A erosão das expetativas aumentou o descontentamento, mesmo entre pessoas com um padrão de vida médio.

Hoje, no seu afã de agradar a todos, os partidos socialistas e sociais-democratas arriscam-se a não agradarem a ninguém e a alienarem os seus eleitorados. Os recentes exemplos das eleições na Holanda e em França reforçam esta ameaça. É preciso contraste e ideias fortes capazes de voltarem a mobilizar as pessoas a favor ou contra as propostas dos socialistas e sociais-democratas, sob pena de a indiferença se transformar em irrelevância.

A clivagem criada pela solução política em Portugal, onde um Partido Socialista assumiu a liderança de um governo de centro-esquerda em absoluto contraste com as prioridades políticas do bloco minoritário de centro-direita, mantendo intactos os seus valores e natureza pró-europeia, tem vindo a revelar-se positiva para o país, permitindo melhorar a vida das pessoas, devolver rendimentos, criar emprego e dinamizar a inovação económica e social.

A “geringonça” acordou Portugal e os portugueses, despertando gente disposta a argumentar em sua defesa e também gente disposta a opor-se-lhe. Este movimento clarificou alternativas, mostrou que a escolha política é possível, que tem consequências na vida quotidiana das pessoas, que há vários caminhos para atingir resultados macroeconómicos e que se pode defender o projeto europeu em nome das pessoas, e não contra elas.

Numa recente entrevista, o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas chamou a atenção para a necessidade de polarização, para permitir escolhas e opções e recuperar o vigor da democracia e da esquerda socialista e social- -democrata, e para combater o populismo e o nacionalismo tendencialmente autoritário e de direita.

O combate político deve ocorrer em cada espaço de ação e em torno de questões substantivas para a vida das pessoas, e não em torno da agenda abstrata dos números e da narrativa neoliberal. É também determinante reforçar a cooperação supranacional democraticamente legitimada, mobilizando os que se sentem abandonados e deixados para trás pela globalização desregulada.

Esta plataforma deve ser o viveiro do revigoramento das propostas socialistas, sociais-democratas e progressistas na Europa e no mundo – um viveiro alimentado no contraste político e não em falsos consensos que, matando a política, facilitam a supremacia dos que a diabolizam.

O consenso como resultado do debate e do confronto de ideias é um motor de progresso e desenvolvimento sustentável. O consenso sem contraste mata a participação. É um vírus político perigoso que só o contraste democrático de ideias e projetos pode vencer com sucesso.

 

Eurodeputado

 

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