23/5/17
 
 
Ricardo Costa 18/05/2017
Ricardo Costa

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Contra o panfleto

Portugal já não é igual nem pode deixar de ser diferente do Portugal dos efes; recuperar a trilogia não permite que descubramos o que somos hoje

Bom. Parece que se vive um momento alto de comoção e motivação das gentes, de acordo com a combinação dos astros no que toca a crescimento económico e emprego induzido, prémios musicais e fervor religioso. Para alguns, até se pode juntar o orgulho clubístico manifestado nos habituais ajuntamentos das massas do fim de semana último. Depois do orgulho, de todos, sentido com a vitória do futebol em França e de Guterres na ONU. Como não poderia deixar de ser, começaram, no entretanto necessitado pelos fóruns da comunicação, a pulular os especialistas sobre “sucesso”, “moda”, “reconhecimento” e “ilusão”. Como sempre pululam entre nós especialistas sobre tudo. E ficamos sempre na dúvida de onde surgem eles, num país aparentemente demasiado reduzido para saber tanto sobre tudo. O certo é que, por vezes, não se sabe o que se é e o que se pode ser. Esse é o problema, nomeadamente quando as coisas enormes nos batem à porta.

Pensar que estamos perante a importância agregadora dos efes de Fátima, futebol e fado será um equívoco. Estamos muito longe desse atraso redutor e dessa tradução de impotência. Para além disso, recuperar a trilogia implica, para uma grande parte, uma legenda adicional e muitos desenhos para explicação. Fátima – e a fé impressiva que comporta para os fiéis e crentes – está a anos-luz da projeção do passado. O desporto-rei não significa o que já significou de alienação coletiva – embora se utilize para outras façanhas grupais e resistências corporativas nos colégios conhecidos. E o fado de hoje – se quisermos, a música de hoje, feita e cantada em português – é um mosaico de riqueza e diversidade que demasiadas vezes se desconhece e menospreza. Recuperar sem mais os efes pode ser um indício de que, isso sim, o espaço público da identidade portuguesa não consegue avançar mais quando tem tudo para o fazer. Pode ser prova de que continuamos a abrir trilho para complexos de inferioridade que não têm mais razão para sobreviver. Pode bem ser comprovativo de que a educação, a informação e as migrações das últimas décadas ainda não conseguiram fazer o suficiente em postura social e mental e em fidúcia na relação com os outros (não portugueses, acima de tudo). Será que o legado pré-democrático ainda se reproduz por baixo da camada visível, como um subconsciente atrofiante? Será que, pelo menos, há ainda remanescente um choque geracional dos que se lembram e recordam da penumbra como regra e dos que não viveram e apenas pedem explicações sobre a “marca” de identificação tradicional e ancilosante?

Bom. Sou contra esse panfleto das letras passadas. Somos ainda um país profundamente desigual e com bolsas relevantes de pobreza e astenia. Temos carestias e insuficiências. Temos tanto por melhorar que até esquecemos o que já se fez de melhor. Mas vejam o que se oferece à nossa frente. Temos talento e qualidade como nunca tivemos num ciclo tão curto de desenvolvimento e progresso. Temos vontade e ambição em setores nunca vistos e experimentados. Temos inovação e saberes que não podemos deixar de anunciar. E somos pequenos na medida certa para, sem a grandeza suficiente para guerrear e afligir, conciliar e gerir. Foi assim que descobrimos e demos cartas, por último mal aproveitadas. Esqueçam os efes. E pensem que os outros começam a desejar ter algo que temos. Está na altura de nos descobrirmos e permitir que nos descubram. Se não fosse agora, seria um terrível desperdício. Sem panfletos que desmereçam.

 

Professor de Direito da Universidade de Coimbra. Jurisconsulto, Escreve à quinta-feira

 

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