23/5/17
 
 
Pedro Ferros 18/05/2017
Pedro Ferros
Cronista

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Um círculo virtuoso

É, pois, um espectáculo ou, pior ainda, um exercício profundamente errático aquele de saber ao certo, ouvindo os políticos, quem teve culpa de quê e quem tem direito a reclamar em Portugal os bons resultados

Aos poucos, o frenesim do fim- -de-semana passado vai-se lentamente diluindo, deixando o orgulho pátrio em níveis estratosféricos, com anúncios de crescimento económico a rodos e com as forças políticas a acotovelarem--se para reclamar os louros pelos resultados do último trimestre.

E, claro está, com a perspicaz (e ultimamente eclipsada) Catarina – destilando o seu costumado ódio pelo sucesso e rendimento alheios, que sempre se apressa a distribuir como se tivesse sido da sua lavra – a mandar dizer que não podem ser as empresas a lucrar com o referido crescimento, querendo redistribuir desde já 600 milhões de euros.

De uma forma geral, parece consensual para todos os comentadores (menos radicalizados) que estes números do crescimento trimestral reflectem, antes de mais e no essencial, a capacidade de adaptação das empresas portuguesas à nova economia pós-crise e os esforços dos portugueses durante o período de ajustamento, e que no restante contribuíram certamente, entre vários outros factores, as reposições de rendimentos que alguns tiveram, como também as reformas feitas durante o período de resgate e as apostas, ganhas e mantidas, do turismo e outras.

É também consensual que, em contraciclo, aumentando a dívida e retirando recursos da economia, é o Estado quem falha nesta equação de sucesso.

Importa, pois, pouco quem é o responsável por quê, da parte do Estado e dos partidos que o vão gerindo, se este actua em contraciclo alimentando clientelas, aumentado o endividamento e retirando recursos da economia.

Assim, aquilo que é muito evidente de qualquer forma, e que é necessário ter presente, é que independentemente disso (e sendo desejável que a asfixia fiscal se desagrave transversalmente), o Estado é deficitário nos seus gastos e que o serviço da dívida dos Orçamentos sucessivamente deficitários custa ao país – agora que a esquerda em toda a sua extensão interiorizou o TINA – pelo menos os meios necessários, por exemplo no ano que passou, ao bom funcionamento dos transportes públicos e do Serviço Nacional de Saúde ou ao investimento público mínimo.

O exercício orçamental passado, que veio celebrar – e bem, no imediatismo dos resultados – números de défice orçamental que nem os denominados “ultraliberais” conseguiram, deixou assim escancarada a evidência de que os meios do Estado são exíguos e que, mesmo com importantes cativações, o funcionamento do Estado que nos afaste de nova bancarrota é um caminho das pedras.

O peso do serviço da dívida (pagamento de juros) estimado é, segundo os media, de cerca de oito mil milhões de euros no OE de 2017, e equivalia, à data das projecções, a cerca de 4,3% do PIB, mais do dobro do último défice.

Assim, mais que redistribuir com dinheiro emprestado, parece importante repor níveis mínimos de serviços que os sindicatos – como o do prof. Nogueira, que passou das greves aos postais para o patrão – deixaram de exigir e depois diminuir o endividamento, para que o serviço da dívida diminua também e as contas caminhem para o equilíbrio.

É, pois, um espectáculo ou, pior ainda, um exercício profundamente errático aquele de saber ao certo, ouvindo os políticos, quem teve culpa de quê e quem tem direito a reclamar em Portugal os bons resultados de conjuntura da economia.

Neste cenário em que o Estado funciona como travão ao crescimento, não deixa de ser curioso que a questão do crescimento conjuntural seja posta em termos dos resultados obtidos pelo governo, como faz Catarina Martins, cuja preocupação não é quem e como se criou riqueza, mas sim a costumada preocupação do esbulho colectivista, segundo a qual “não podemos deixar que o crescimento económico seja apropriado por grandes empresas”.

Não obstante, com promessas de mais dinheiro e compromissos de mais investimento pelo governo, há um desafio importante entre as metas prometidas para chegar ao défice zero e os Orçamentos futuros, que já não podem ter cativações cegas para cumprir as promessas de investimento…

É que para cumprir os números prometidos não sobrará espaço para as folgas que Catarina e o PC reclamam na sua ressaca destes Orçamentos “constritivos”.

São e vão ser cada vez mais claros estes posicionamentos para condicionar Costa, e sente-se no ar, enquanto a euforia acalma, alguma tensão social na saúde e nas escolas, promovida pelo PC e o Bloco, como aqui, a mostrar as unhas.

Vai ser interessante perceber os efeitos das boas notícias e de que forma se pode não quebrar este círculo virtuoso…

Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico, Escreve à quinta-feira

 

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