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Turismo. Cidades põem travões às quatro rodas

Turismo. Cidades põem travões às quatro rodas

Shutterstock Sofia Martins Santos 18/05/2017 16:11

Os números não mentem e são claros: em 1950 havia no mundo 25 milhões de turistas. Este número passou para os 702 milhões em 2000 e as previsões apontam para 1500 milhões em 2020. O crescimento ímpar do setor do turismo tem dado um empurrão a várias economias, mas também obrigou a ONU a declarar 2017 o ano do Turismo Sustentável. Crescer é importante, mas até onde?

Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) avançados esta semana não enganam: o turismo continua a crescer e é já um dos maiores suportes da economia nacional. Portugal nunca recebeu tantos turistas como agora e isso também contribuiu para um aumento das receitas na hotelaria e das companhias aéreas. O ano de 2016 entrou na história como o melhor de sempre no setor. Todos aplaudiram. Já este ano, a tendência manteve-se e muitos são os empresários do setor que acreditam que o turismo vai continuar a atingir recordes atrás de recordes.

Este crescimento foi praticamente comum em quase todas as zonas do país, mas ganhou um maior relevo no Algarve, que alcançou, no verão do ano passado, o melhor ano de sempre em termos turísticos. A ocupação atingiu praticamente os 100% e a região foi invadida tanto por turistas portugueses como por estrangeiros. Sol, verão e praia são cada vez mais sinónimos deste destino. Mas é neste momento de maior euforia em torno dos números que aparecem vozes a chamar a atenção para a necessidade de ser estabelecido um plano de crescimento sustentável.

A discussão em torno deste assunto é, para alguns, cada vez mais importante e suportada pelo facto de a ONU ter declarado o ano de 2017 o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento. Mas em que consiste este ponto na agenda internacional? A ideia é alertar para a necessidade de todos reconhecerem “a importância do turismo internacional e, em particular, a designação de um ano internacional de turismo sustentável para o desenvolvimento, para promover uma melhor compreensão entre os povos em todo o mundo, levando a uma maior consciencialização sobre o rico património das diversas civilizações”.

O tema foi levado à xi Conferência Anual do Turismo, realizada pela Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Economistas, onde Hélder Pombinho, da Young & Rubicam, chamou a atenção para a necessidade de compreender do que se fala quando se aponta o foco para a existência deste tema nas agendas internacionais. “Há várias questões que têm de ser compreendidas, nomeadamente o facto de, por exemplo, muito se falar da necessidade de desenvolver o comércio local, mas depois não termos produtos nacionais e tradicionais à venda.”

Muitos outros alertam também para o facto de o medo ser um fator que determina cada vez mais os fluxos turísticos e, muitas vezes, assistimos a uma quantidade de turistas que preocupa os habitantes das cidades, como já aconteceu em Barcelona, Espanha, onde foram impostos limites à entrada de turistas.

Também a UNESCO explica a importância de todos terem atenção ao facto de ser necessário crescer, mas de forma bem gerida. “O turismo é impulsionado pelas forças da globalização, que têm levado a um enorme aumento da circulação de bens e ideias, de pessoas e tendências culturais. Essa atividade pode ser canalizada de maneira a permitir que visitantes se divirtam e aprendam com a riqueza e a diversidade do património cultural, das expressões culturais e das práticas culturais imateriais. O turismo ajuda as indústrias culturais locais a encontrar novos públicos, assim como novos mercados, para seus bens e serviços. Durante 2017, a UNESCO irá trabalhar com os seus Estados-membros e muitos outros parceiros para garantir que o turismo sirva para preservar, em vez de destruir, o património multifacetado do mundo, o qual contribui para o bem-estar e a dignidade das comunidades, além de proporcionar a reunião das pessoas”, explica a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

Os alertas multiplicam-se em relação a vários temas, nomeadamente no que respeita às alterações climáticas e aos efeitos que têm e podem vir a ter no futuro. O tema já é discutido há vários anos, mas os mais críticos garantem que nada tem sido feito de forma a tentar mudar mentalidades. Vários estudos têm vindo a ser elaborados e apontam para o facto de ser bastante provável que o aumento da temperatura tenha influência na escolha dos destinos de verão na Europa, registando--se as maiores taxas de crescimento no norte da Europa. Mas há também que considerar o impacto das mudanças climáticas nos desportos de inverno, uma indústria que atrai milhões de turistas todos os anos e que gera receitas na ordem de milhões de euros anuais.

A verdade é que os países estão a ser confrontados com desafios incontornáveis não só às políticas nacionais, mas sobretudo às políticas setoriais, regionais e locais. Vinte e cinco milhões de turistas em 1950, 702 milhões em 2000, 1500 milhões em 2020: os números não mentem e mostram a importância deste setor para as economias, mas também são uma chamada de atenção para uma taxa de crescimento ímpar.

Para as organizações envolvidas nesta chamada de atenção global há pontos que dizem merecer cada vez mais atenção, entre eles, o consumo desmesurado de recursos naturais; os danos ambientais e a poluição; a erosão cultural motivada pela crescente comercialização; e a redefinição de prioridades das políticas públicas que o turismo provoca ao nível local.

No caso de Portugal, muitos consideram que os dados do crescimento são uma boa notícia, mas deve ser tido em conta o facto de o número de turistas não parar de crescer, com Lisboa a ser a quinta cidade europeia a registar maior aumento da procura. Uma das prioridades que se afigura urgente para este ano é considerar a saturação dos principais focos de atração turística.

Outro dos assuntos que têm estado em cima da mesa em Portugal tem a ver com o aumento insuportável dos custos para quem procura casa. Os preços estão mais inflacionados e há zonas em Lisboa, por exemplo, onde é impossível encontrar um imóvel disponível, como no Castelo ou Bairro Alto. A explosão da oferta de casas para alojamento local tem vindo até a motivar várias queixas por parte dos moradores.

 

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