23/5/17
 
 
Marta F. Reis 19/05/2017
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

Daqui a cem anos

Depois de dois dias de correria na sala de imprensa do Santuário de Fátima, dei comigo a pensar: daqui a um século, quando metade do que escrevemos se tiver perdido no online, que história é que vamos contar?

O Papa esteve em Portugal 23 horas e 42 minutos. Para quem esteve destacado para a cobertura jornalística no santuário, como eu e o João Porfírio, parece que foi uma semana, sempre de um lado para o outro a tentar encontrar novas histórias e as melhores imagens (se ainda não viram as do João, percam cinco minutos e procurem...).

No sábado à tarde, já o Papa devia estar para aterrar em Roma, deu-nos aquele clássico da bebedeira de sono. Constatámos, não sei bem a propósito de quê, que já não íamos estar cá para o bicentenário das aparições de Fátima, que se assinalará em 2117. Portanto, aquele tinha sido um momento irrepetível. Alguém notou sensatamente que o “centenário” das aparições já não se repete de qualquer forma, como todo o tempo que fica para trás, mas nós, naquele estado meio alucinado de quem andou a mil e para de repente, tivemos ali um momento de luto pelo tempo que virá e já não iremos ver. Visto agora, até parece parvo estar a falar aqui disto: podemos até já não estar cá amanhã, que interessa os 200 anos das aparições, só um dos milhentos acontecimentos que vamos perder? Mesmo sabendo disto, não foi a primeira vez que me inquietei com efemérides futuras: já tive a epifania de que não vou estar cá para os mil anos de Portugal, em 2143. Espero que façam uma coisa com gosto e sentimento, não aquela parolice do fogo-de-artifício (se é que percebi bem a lição que Salvador, o outro acontecimento do fim de semana, deu ao país).

Mas partilho aqui esta história pela reflexão que gerou a seguir (estávamos à espera que o trânsito aliviasse para podermos voltar a Lisboa...). Nos artigos que publicámos a propósito do centenário de Fátima, pelo menos dois tinham como fonte jornais antigos, de 1917. “O Século” era, na altura, umas quatro ou cinco páginas, formato broadsheet, onde quase aposto que cabiam mais carateres do que nas nossas edições diárias atuais. Ali e noutros jornais lê-se o que aconteceu na altura, provavelmente ignorando muitas outras coisas que não foram dignas de registo, ou editorialmente não interessavam, mas a informação, hoje memória, tinha como único canal o jornal do dia. E cem anos depois, ao abrir o jornal, vemo-la nesse prisma: as peças maiores com o que era considerado mais importante e dezenas de pequenos apontamentos que imortalizaram desde missas de sétimo dia até ao aumento do preço do açúcar. Temos o que aconteceu e o contexto. E daqui a cem anos, quando alguém estiver a cobrir o bicentenário das aparições e quiser dedicar duas páginas ao “Portugal do centenário das aparições”? Imagino que seja possível consultar os jornais do dia e até os noticiários, mas e tudo o que contámos no online e que não entra no papel, todos os diretos? Daqui a cem anos, ler um jornal de agora será o suficiente para ter uma fotografia do que hoje vemos passar-se à nossa volta e reportamos? E as redes sociais? Como é que os historiadores se vão orientar entre os documentos críticos e a confusão de “últimas horas” das notícias? Ou só se vai contar a história em traços altos e tudo o que andamos a fazer no entretanto não é nada? E, se não é nada, porque fazemos?

Mesmo acreditando que as histórias que contámos na net sobrevivem, o que nos garante que não aparece, a qualquer momento, um ransomware ou qualquer outro bicho informático que não apaga isto tudo? Tentei perceber se isto apoquenta alguém (decerto que sim) e vi que um conjunto de universidades norte-americanas criaram em 2014 o projeto Documenting the Now, que explora a problemática do arquivamento de dados na era do digital sob um outro ponto de vista: se se usar, por exemplo, a informação nas redes sociais para documentar uma manifestação, como se garante a privacidade dos que ali participaram e o contexto de fotografias, tweets e memes? Claro que isto é coisa para daqui a 100 anos, mas não interessa a memória que vamos deixar de nós?

Últimas linhas para o Salvador: a música que não me sai da cabeça é a belga, “City Lights”, cantada por Blanche, de 17 anos, e escrita pelo vocalista de uma banda rock do país. Por curiosidade com a letra, que alguns ouvintes dizem remeter para o que o país tem sofrido na “zona de perigo” do terrorismo, ouvi uma entrevista do compositor Pierre Dumoulin. Ele também diz que nunca se tinham imaginado na Eurovisão e que não queriam foguetes (fireworks), apenas mostrar a voz de Blanche e a canção. Mas fá-lo de uma forma bem mais simpática, admitindo que não estava à espera de encontrar, em torno do “microcosmos” do festival, tantos fãs, tantos blogues. Ou seja, tantas pessoas para quem aquilo não é uma idiotice. Sentiram que viram neles uma lufada de ar fresco, também acham que o festival precisa disto, mas, que tenha visto, não diminuíram ninguém. “Tem lágrimas na voz”, disse Pierre de Blanche, que ficou em quarto lugar. Também achei. Só não votei porque, ao chegar a casa de Fátima, adormeci antes de abrirem as votações.

Jornalista

Escreve à sexta

 

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